História

A origem da palavra "Gaúcho"

 

Rodeio dos Ventos, Barbosa Lessa Barbosa Lessa
Rodeio dos Ventos
Editora Mercado Aberto, 2a edição


As pessoas normais costumam fazer uma só vez ao ano as comemorações de aniversário. Eu, por apaixonado ou exótico, pedi que ela deixasse eu comemorar mensalmente o aniversário dela; e ela permitiu. A cada dia 21, quando saio do escritório ao final do expediente, passo no açougue e pego uma boa costela e passo no súper e trago umas cervejas para a geladeira. A reunião se faz na churrasqueira do meu galpão simbólico, num canto do pátio. Se o tempo está ruim, pode ser que não apareça quase ninguém. Se a noite está linda, preparamos o espírito para receber maior número de amigos.

Ninguém é convidado formalmente; mas basta que alguém seja relacionado com nossa casa para estar informalmente avisado de que será bem-vindo nas noites de 21. Os mais curiosos perguntam qual a razão de ter-se escolhido esse dia e qual o motivo da reunião. Desconverso. E nem mesmo nossos dois filhos sabem que escolhi essa fórmula para renovar, ao menos rima vez por mes, meus agradecimentos a Deus por ter me dado uma companheira tão bacana, tão dedicada e fiel. As coisas de amor devem manter-se em segredo.

Alguns dos nossos amigos são mais assíduos às reuniões. Quase sempre vem o Heleno, carregando o violão e a bonita da Fátima. O Fraga, com seus poemas haicais. O Paolo Mellone, com suas inquietações de marketing e sua postura de visconde rio-grandino. E o Gregório, com a filha Zenaide.

A presença do negro Gregório talvez exija uma pequena explicação.

Ao tempo do meu bisavô, os crioulos Sousa eram nossos escravos. Ao tempo do meu avô, tornaram-se agregados da fazenda, plantando em regime de terça-parte. Ao tempo do meu pai, começaram a se desligar de nossa terra. Ao meu tempo, vários deles já moram em Porto Alegre.

Dos crioulos Sousa que hoje moram em Porto Alegre, só o mais velho se desencaminhou: é aquele que anda aparecendo nas crônicas policiais com o nome de "Crioulo Rengo". O mais moço joga nos juvenis do Internacional e está pintando para o próximo campeonato. Depois vem o meu afilhado, que é programador de computador na PROCERGS.

A Rosália, sempre bonita, casou com um motorista do Banco Sul-Brasileiro, está muito bem. E o Gregório se constitui numa surpresa, pois lá em nosso município nem se ouvia falar em batuque: é pai-de-santo. A filha dele, a Zenaide, é muito bem educadinha; está completando o 12 grau no Colégio Nossa Senhora da Glória.

Mais que o meu próprio afilhado, é o Gregório quem mantém maior relacionamento conosco. Herdou um certo atavismo de subserviência. Faz-nos agrados, traz presentes para meus filhos, sempre pergunta se estamos precisando de alguma coisa em que ele possa ser útil. Para retribuir, eu às vezes compareço às grandes festas no terreiro dele, quando há homenagem a Xangô ou Iemanjá, embora me desagradem tais superstições de baixo espiritismo.

Há cinco meses, em julho, na reunião do dia 21, estávamos molhando a garganta à espera de que o churrasco ficasse bem assado, e o Mellone me perguntou se eu estava fazendo mais alguma nova pesquisa em História ou Folclore - que são duas matérias que eu cultivo por hobby. Respondi que eu gostaria muito de poder apresentar ao Congresso Tradicionalista, em Santo Antônio da Patrulha, uma contribuição séria a respeito da origem da palavra "gaúcho". Pois afinal - argumentei - não se pode aceitar que milhões de pessoas cultivem o gauchismo e desconheçam a origem da palavra, seu sentido, seu valor semântico.

- E qual é a etimologia de "gaúcho"? - perguntou o Fraga, com os olhinhos cintilando, talvez em pré-inspiração para um novo poema.

- Pois aí é que está. decepcionei-o. - Ninguém sabe.

Para que a coisa não ficasse parecendo conversa de doido, entrei em detalhes. Nunca se encontrara uma etimologia plenamente convincente. No Rio Grande do Sul difundiu-se uma explicação lendária, sem nexo, que junta o guarani guahu, "uivo do cão", com o pronome guarani che, "meu", e dessa soma resulta algo completamente diferente: "gente que canta triste" (?). No Uruguai os estudiosos se dividem em duas correntes de opinião.

Uma, do falecido professor Buenaventura Caviglio, reporta-se ao instrumento garrocha, espécie de foice com que outrora cortavam o jarrete dos bois durante as caçadas de couro; garrucho seria o homem portador de garrocha; e como os guaranis não conheciam o som rr, passaram a dizer guahucho.

A outra corrente, liderada pelo professor Fernando Assunção, reporta-se à palavra francesa gauche (pronuncie-se "gôche"), que significa esquerdo e, por extensão, tudo o que não é direito; daí o galicismo espanhol gaucho, aplicado em Geometria e Arquitetura para significar aquilo que está fora de nível; e o primitivo gaúcho era considerado, dentro da superfície ou do plano social, como um defeito da raça espanhola.

- E na Argentina, como é que é? - perguntou a Fátima.

Respondi que, em 1925, um jornal de Buenos Aires promovera uma grande mesa-redonda para esclarecer em definitivo o tema, e os trinta intelectuais presentes só o que conseguiram foi uma confusão maior que antes, ao apresentarem uma ponchada de versões diferentes.

- Só o que se sabe mesmo - fui eu encerrando o assunto - é que o primeiro registro da palavra se deu em 1787, quando o matemático português Dr. José de Saldanha andou por aqui como integrante da comissão demarcadora de limites na banda oriental do Uruguai.

Numa nota de rodapé em seu relatório de trabalho, esclareceu, e eu até já decorei:

"GAUCHE, - palavra espanhola usada neste País Para designar os vagabundos ou ladrões do campo que matam os touros chimarrões, tiram-lhes o couro e vão vender ocultamente nas povoações".

- Mas então é uma palavra pejorativa... comentou o Fraga, decepcionado e já desinspirado.

- Talvez sim, talvez não. De qualquer maneira, pela explicação do demarcador Saldanha a gente ficou sabendo que não é palavra portuguesa. Não era conhecida nem pelos portugueses do Reino nem pelos colonos das ilhas dos Açores.

E como o churrasco já estivesse bem no ponto, antes de ir servindo-o eu pus o ponto final:

- O Congresso está se aproximando e acho que vou terminar não apresentando tese nenhuma. Mas a nossa cultura ficaria muito grata a quem pudesse esclarecer o intrincado enigma. Se algum de vocês puder me ajudar, nada de constrangimento: me ajude.

À saída, o Gregório perguntou-me com certa humildade:

- Não ficarias chateado se eu te ajudasse a descobrir a origem da palavra gaúcho?

Compreendi: ele estava querendo fazer uma das suas bruxarias, sabia da minha incredulidade e, zeloso como era, não queria me ofender com uma intromissão não-consentida. Dei uma risada:

- Vais me dizer que também tens folcloristas entre os teus orixãs?!

- Não posso afirmar nem sim nem não, pois até hoje não precisei procurar nenhum. Mas temos alguns encostos que foram pretos africanos, índios, caboclos, boiadeiros, ao tempo do desbravamento territorial do Rio Grande, e talvez possam me informar alguma coisa.

- Não faço objeção: estás autorizado a convocar quem bem entendas.

- Se, por acaso, eu obtiver alguma mensagem, peço para a Zenaide passar para o papel e vir te trazer.

- x -

Já faz uns dois meses que, certa manhã, no momento em que eu saía de casa para ir trabalhar, apareceu Zenaide e entregou-me uma folha, arrancada de seu caderno escolar.

ORIGEM DA PALAVRA GAÚCHO

Se os brasileiros fossem os primeiros a chegar ao planeta Marte, e lá encontrassem maricanos vivendo na roça, não inventariam uma palavra nova para identificá-los, pois já têm a palavra: roceiro, matuto ou caipira.

Quando os navegadores europeus, a caminho das índias Orientais, descobriram as Índias Ocidentais, para aqui transplantaram a palavra pela qual já identificavam os habitantes autóctones: índios.

Quando o Rei da Espanha mandou casais de agricultores das Ilhas Canárias povoarem a recém-fundada Montevidéu, eles transplantaram a palavra pela qual identificavam o habitante autóctone das ilhas.- guanche, ou guancho.

O Dr. José de Saldanha estava certo ao dizer que se tratava de uma palavra espanhola. Só que não era o espanhol do continente: era o espanhol das Canárias.

Temos certeza de que foi esta a origem da palavra gaúcho, com pequena distorção de pronúncia: guanche, ou guancho.

(Informações dos caboclos Maicá, Saltein e Perdiz, do preto velho Catarino e do colono Juan Bermúdez, concatenadas pelo folclorista Apolinário Porto Alegre e psicografadas por Pai Gregório de Xangô durante o batuque da noite de hoje, 5 de outubro de 1977.)

Intrigado, fui ao Consulado da Espanha perguntar se havia algum canário residente em Porto Alegre. Indicaram-me o Sr. José Juan Morales Gutierrez, diretor de restaurantes da cadeia hoteleira Plaza. Convidei-o para tomar um uísque, ele foi muito simpático, eu não lhe disse realmente que estava tratando de assunto provocado por um pai-de-santo, mas conduzi o papo até que ele me pronunciasse o nome dos habitantes rurais das Canárias. A pronúncia é dificil de reproduzir em português.

Mais parece ganche, ou gantcho; mas também parece ser guantcho, gãotche, gaucho,guahuchi.

Disse-me o Sr. José juan Morales Gutierrez que, se eu quisesse saber mais coisas sobre as Canárias, escrevesse ao Prof. Néstor Alamo, uma sumidade.

Somente hoje pela manhã chegou a resposta à minha carta:

"Las Palmas de Gran Canária, 1O-XII-77.

"Distinguido señor: Espero me perdone usted; he estado de viaje primero y luego he tenido una serie fatigosa de trabajos que me ha impedido el atender a mis compromisos.

"Contesto a la suya de 7 de octubre anterior. Debo decirle que la palabra ganche no existe. Creo que ella debe corresponder a guanche, que sí tiene existência. Esta voz sirve a los habitantes prehispánicos de estas islas. Esta raza tuvo existencia hasta la mitad primera del siglo XVI aunque ya mesclada con los europeos que vinieron a civilizarnos. Hoy, la raza, como tal, está extinguida o casi, aunque en el sur de Tenerife aun se pueden observar débiles vestígios de ella. Acaso en las montañas de las otras islas también.

"Con mis deseos de que tenga una feliz Navidad y el mejor año 78, le saluda

(assinado) Néstor Alamo".

- x -

Ainda há tempo para ultimar e apresentar a tese, agora mês que vem, em Santo Antônio da Patrulha.

Mas tenho certeza de que o plenário vai cair na gargalhada quando me perguntar qual a fonte em que me baseei e eu invocar por testemunhas nada menos que cinco mortos: três caboclos, um negro e um colono canário que por aqui andaram há dois séculos ou mais.

Não, não vou apresentar tese nenhuma.

É claro que a cultura tradicionalista vai sair perdendo. Mas, ficando calado, salvo o meu pêlo e não vou passar por maluco.

Devo manter em segredo, para sempre, esta minha descoberta sobre a verdadeira origem da palavra gaúcho.



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