Flores da Cunha

(24/05/1924)

A nova tarefa dos artesãos

Produzir vinho e cultivar parreirais era uma mania que os imigrantes trouxeram da Itália sob a forma de mudas de videira, esparramadas pela encosta da Serra gaúcha. Na antiga Flores da Cunha, conhecida então como Nova Trento, este hábito não só vingou como ganhou algumas nuances. Dentro do pequeno povoado ocupado a partir de 1878, a uva era colhida tanto na colônia quanto na área urbana. "Os fundos de algumas casas da cidade eram tomados de parreirais", afirma o aposentado Claudino Boscatto, 79 anos.

O plantio da uva na cidade foi um reflexo do perfil dos imigrantes que ocuparam Nova Trento. Provenientes do norte da Itália, muitos deles eram artesãos. Como não sabiam plantar, compravam, além dos lotes coloniais, terrenos menores na vila para abrirem suas casas de comércio. "Meu avô patemo, que era alfaiate, contratava o trabalho dos vizinhos em troca da confecção de roupas", lembra Boscatto. Sem máquina de costura, o alfaiate Pietro trocava um dia de capina nas suas terras pela confecção de uma calça de lã. Quem ficava na lavoura, arcava com a parte mais pesada e rendosa do trabalho. Quando deixaram o plantio de milho e trigo para se dedicarem ao penoso processo de fabricar vinho, os colonos encontraram dificuldades que logo se transformaram em lucro. "Valia mais produzir vinho do que vender a uva", afirma o aposentado.

Criada sob a forma de duas vilas, Flores da Cunha foi unificada na localidade de São Pedro porque em São José não havia água para abastecer os lotes. Da junção, surgiu uma briga. Qual seria o nome do povoado? Em meados da década de 1880, o batismo do futuro município contava com cinco candidatos: São Pedro, Nova Vicenza, Nova Mantova, Nova Cremona e Nova Pádova. Numa manhã, os moradores acordarm com uma surpresa; uma tabuleta de 4 metros de largura por 80 centímetros de altura pendurada no pinheiro mais alto da praça central.

Escrito a carvão, o nome escolhido pelo imigrante Sisto Rossetto e aprovado pelo engenheiro Diogo dos Santos colocava um fim à discórdia. Em homenagem às duas famílias de trentinos (Santini e Bebber) que haviam ficado fora da discussão, a colônia passou a se chamar Nova Trento.

Negócios combinados

Com o dinheiro do vinho, o pai do agricultor Antonio Laghetto, 90 anos, construiu um casarão de três andares no distrito de Otávio Rocha. Com mais seis irmãos, ele cuidava de um parreiral. No porão da casa, a cantina abrigava 20 pipas que podiam armazenar mais de 100 mil litros de bebida por safra. Mas enquanto alguns italianos não tiravam a mão da enxada e dos barris, outros faziam as duas coisas. No Travessão Aquidabam, o imigrante Antonio Maria Melara tocava ao mesmo tempo os negócios do seu Hotel Unione, fundado por volta de 1886 no centro de Nova Trento. Em 1914, Francisco Boscatto comprou todo o patrimônio do sogro. Na pequena colônia, criou um parreira "Esta uva servia para produzir o vinho Trentino, usado no hotel", relembra hoje o aposentado Claudino Boscatto, neto de Pietro, um imigrante dedicado à alfaiataria.

Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:

James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.

Editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.