Bagé

(02/02/1847)

Federalistas resistem por 46 dias

Os antigos moradores de Bagé presenciaram de camarote um dos muitos episódios sangrentos que tornaram a Revolução Federalista de 1893 uma das mais violentas da história do Rio grande do Sul.

Durante exatos 46 dias, maragatos tomaram a cidade e sitiaram seus adversários pica-paus na Praça da Matriz. Fome, sede e doença substituíam a famosa degola na tarefa de abater o inimigo. Protegidas somente por trincheiras e canhões, as forças que defendiam o governo Júlio de Castilhos resistiram até a chegada de reforços.

Desde o dia 24 de novembro era possível avistar os piquetes de lanceiros federalistas arrebanhando cavalos pelos subúrbios. Aos poucos, os revolucionários foram estabelecendo o sítio. Aproximadamente 1.000 homens (membros do Partido Republicano e do Exército) foram cercados entre a praça da Igreja Matriz de São Sebastião e as ruas próximas. O quadrilátero da resistência legalista não passava de 10 mil metros quadrados.

Em volta desta área, cerca de 5 mil federalistas se revezavam no ataque às barricadas erguidas nas esquinas. "Eles tinham o apoio de uma parte da população que os abrigava nas casas da periferia", conta o engenheiro agrônomo José Cypriano Nunes Vieira, 69 anos, bisneto da irmã de Joca tavares, um dos líderes do sítio.

Nos primeiros dias de combate, a artilharia marcou o cerco. A igreja e os prédios foram crivados de balas. Alguns castilhanistas deserdaram. As fugas se davam pela zona sul da praça, onde era mais fácil chegar ao cemitério que ficava a 800 metros. O medo da morte falava mais forte.

Por volta das 4 horas do dia 22 de dezembro, uma curta trégua permitiu que alguns familiares dos combatentes sitiados penetrassem nas trincheiras. Por quase um mês, eles haviam ficado sem notícias de seus parentes e amigos.

Naquela oportunidade, as duas forças tentaram selar um armistício. Uma comissão de revolucionários propôs a rendição ao general Carlos Telles, comandante dos republicanos. A resposta fechou todas as portas: "Vocês é que devem depor as armas, porque estão fora da lei."

No 30 dia de luta, a ração dos republicanos estava em apenas um quarto do necessário para alimentar os 800 homens. Famintos e cansados, os pica-paus dormiam ao relento e comiam carne de cães, gatos e cavalos. Em busca de água ou comida, Telles formava piquetes que saíam a procuram mantimentos. Muitos soldados eram surpreendidos e acabavam não retornando.

Com a aproximação dos reforços solicitados pelas tropas castilhanistas, em 5 de janeiro de 1894 Joca Tavares resolveu promover o ataque final. Derrubando muros e perfurando paredes, os maragatos avançaram. Informados da ação, o general Carlos Telles antecipou a defesa, colocando abaixo paredes de dois prédios que ainda não haviam sido alcançados pelos rebeldes. As forças adversárias se encontraram no meio do caminho. O tiroteio foi intenso até que os legalistas dispararam os canhões e uma descarga de granadas contra a linha federalista.

Dois dias mais tarde, as tropas sitiadas deixaram de ouvir as armas maragatas. Por volta das 23 horas, um piquete saiu para sondar o terreno e voltou com a boa notícia: a cidade estava deserta. Na manhã seguinte, as tropas ansiosamente esperadas como reforço se aproximaram de Bagé. O sítio havia terminado antes da desistência dos sitiados.

O frágil forte construído pelos espanhóis

Barro, madeira e palha. Em novembro de 1773, os espanhóis pensavam que estes materiais segurariam o exército da Coroa Portuguesa durante uma possível retomada do território controlado por eles haviam 10 anos.

Sem perceber o erro de engenharia militar que estavam cometendo, o governador das Províncias do Rio do Prata, Juan José Vertiz y Salcedo, levantou o Forte de Santa Tecla, às margens do Rio negro, em Bagé.

A construção ficou à cargo do francês Le Coq. Com muralhas de barro calcado, construções internas de pau-a-pique e telhados de palha, a fortificação tinha o formato pentagonal. Em cada uma de suas extremidades, um baluarte fazia invocação a São Francisco, Santo Agostinho, São Miguel, São João Batista e São José. No lado sul, um fosso dificultava a escalada das tropas inimigas.

Foi o que salvou temporariamente a frágil fortaleza. A obra ficou pronta em 1776, às vésperas de um ataque que iniciou em 28 de fevereiro. Plantadas em uma coxilha, as muralhas de Santa tecla produziam despenhadeiros naturais que impossibilitavam a escalada de tropas inimigas. Sem possibilidade de invadir, as tropas dirigidas pelo sargento-mor Rafael Pinto Bandeira resolveram esperar.

Dpois de enfrentar um cerco que durou quase um mês, o comandante da fortaleza, Don Luiz Ramirez propôs a paz. o chefe das forças portuguesas aceitou a rendição. Prendeu os adversários e colocou fogo no forte.

Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:

James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.

Editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.