Pastoral Missioneira

Capítulo IX - Os Bichos

Os animais formavam em torno de nós uma curiosa moldura, móvel e viva, que parecia nos prolongar sobre o mundo e nele mais firmemente nos inserir. Os caseiros eram mansos e bons. Viviam conosco, de nós pareciam depender e até (quem o duvida?) talvez nos estimassem. Quando sofriam, o que acontecia com freqüência, todos sofriam seus dramas, que em breve eu também passaria a sentir. Não tardei a conhecer outra categoria destes seres, formada indubitavelmente dos maus, que não pertenciam à nossa comunidade. Viviam em lugares ignorados. Pareciam surgir de esconderijos, nas matas e vinham rondar a casa a horas mortas, protegidos pela escuridão. De alguns eu tinha vagas notícias nas estórias contadas ao pé do fogo.

Chegaria a hora de travar com um deles o primeiro contato.

Foi durante uma noite, depois de uma gritaria das galinhas.

Mamãe, sempre providencial, levantou apressada.

Ouvi perfeitamente quando dizia a meu pai:

- É a raposa nas galinhas. Vou acender um facho ligeiro.

Precipitou-se em direção à cozinha, onde acendeu um maço de palhas de milho.

Enquanto isso, depois do susto geral, as aves se aquietaram.

Só uma delas continuava gritando, cada vez mais angustiadamente. Aos poucos, seus brados foram perdendo a energia e assumindo o tom aflitivo de um pedido de socorro.

Percebi que era ocasião de perigo. Trepei à guarda da cama, puxei a espada do esteio, arrasteia-a em direção à mamãe.

- Pegue a espada, pegue a espada!...

Mas ela já saíra e alumiava o poleiro com seu archote de palhas. Atrás vinha meu pai. Amparado por essas companhias, eu sentia minha coragem crescer.

- Está ali ela, está ali ela, dizia mamãe, apontando um vulto escuro, a um canto do galinheiro.

O bicho era muito menor do que eu imaginara. Apesar disso, não parecia assustado com a nossa presença.

Apontei-lhe a arma, para desferir um pontaço mortal. Mas a espada pesava, minha força não permitia guiá-la. Meu pai, para não perder a presa, arrebatou-me a arma das mãos e desferiu o golpe que eu tentara.

Estava decidido a liquidá-lo imediatamente:

- Morre, desgraçado!

O animal trespassado, nem gritou. Apenas percebi que ele estremecia ligeiramente e agitava uma cauda longa, coberta de pelos escuros, com chumaços esbranquiçados.

Para certificar-se bem de sua morte, puxou-o para fora com a ponta da espada. O bicho vinha quieto, emboladinho e mole.

-Está te fingindo, bandido, dizia meu pai.

- Credo, pobre animal, está morto, interferia mamãe.

- Morto, coisa nenhuma, você não sabe que esse lorpa se finge de morto? É assim que ele, faz com os cachorros. Se você deixar ele ferido aí, amanhã, nemrasto. Agora eu acabo com a vida dele.

Aplicou-lhe mais um pontaço, atrás da paleta, de costela a costela.

- Agora sim, eu garanto. Essa atravessou o coração.

Mamãe acendeu mais um facho e eu pude perceber, ao clarão renovado, que o animal estertorava. Abria largamente a boca pálida, armada de uma longa fila de dentes, afiadíssimos.

- Que serra danada tem este infeliz! Por isso é que ele mata um animal tão ligeiro.

Como contraprova, ali estava, nas mãos de mamãe, a vítima com suas marcas recentes. Os lanhos no dorso e no lombo da galinha eram fundos, dando a idéia de que o bicho conseguira tirar-lhe uns bocados. Trazida para a cozinha, foi examinada à luz das brasas. A recuperação seria penosa e difícil. E ali mesmo decidiu-se o seu fim, destroncando-lhe o pescoço.

Era o destino das galinhas: escapara do gambá, não escaparia do homem.

E nós achávamos que estava tudo muito certo: matar primeiro o gambá, para depois matar comer a galinha, tranquilamente, sem concorrências...





Os outros iriam se apresentando aos poucos, num longo desfile. Dos mais curiosos foi o que meu pai trouxe do mato, espetado na ponta de uma vara. Depositou-o no borralho à beira do fogo. Era uma bola de espinhos. Quando nos aproximamos, ele nos conteve:

- Cuidado, não peguem esse bicho, que os espinhos são vivos!

Ficamos detidos, entre o temor e a curiosidade. As precauções de que o bicho era cercado nos faziam recuar.

- Que bicho é esse, papai?

- Esse é o ouriço. Agora vocês já vão ver o que ele é capaz de fazer.

O efeito de sua maldade estava ali, no Baíto, que grunhia de dor no terreiro, com a boca cheia de espinhos de seu corpo.

Tio Lourenço foi chamado às pressas. Quando chegou ataram o cachorro e lhe abriram a queixada à força. Os lábios e toda a cavidade estavam tomados, alguns espinhos trespassavam-lhe as bochechas.

- Que praga do inferno. Até parece costurar a boca do animal.

Papai ia empurrando os espinhos para frente, tio Lourenço os apanhava entre os dentes de uma torquês e explicava:

- Para trás eles não saem, vejam.

E puxava um pelo pé, para nos mostrar. Os espinhos repuxavam os músculos e a pele, mas não cediam.

- É porque têm uma lixa, uma espécie de fisga, como o anzol, por isso trancam.

No céu da boca, não havia outro remédio, tinham de sair para trás mesmo. A sorte é que não se aprofundavam muito, porque os ossos não permitiam.

O Baíto, apesar de sua valentia, choramingava, procurando fugir ao tratamento.

- Paciência, cachorrinho, é para teu bem. Não pode ficar nem um espinho, senão eles vão se enfiando, vão se enfiando na carne, a caminhar pelo corpo, até chegar no coração.

- E daí?

- Daí, o bicho bate com a cola na cerca e os corvos comem ele.





Os corvos! Aí estavam uns bichos que me sugeriam as mais variadas conjeturas. Vistos de muito longe, ao alto, revoando em círculos harmoniosos, de baixo de alguma nuvem branca ou

flechando para a terra, num vôo imprevisto, de estranha sonoridade, eram sem dúvida belos. E que transfiguração degradante eles sofriam naqueles bandos que negrejavam, numa competição feroz, sobre os animais mortos, pelas costas dos banhados. Não deixavam de ter algo de maldito, pelo fato de viverem condenados a comer carniça. Esta última circunstância impunha-me outra asssociação: a cor preta do corpo, o vermelho do pescoço, o passo desengonçado, até o aspecto deles cheirava mal. Eram o Demo!

Mamãe tentava reconciliar-me com sua presença, explicando-me que eram muito úteis, porque limpavam os campos.

- Podem comer os animais mortos de qualquer peste braba e não pegam nenhuma. São tísicos por natureza...

Apesar disso, tinham uma resistência milagrosa, duravam mais do que uma pessoa bem velha.

Era durar! Pois uma pessoa dessas, do tempo de dantes, vergada pelo peso dos anos na cacunda, como dizia vovó, devia ter eras e eras!

Havia outras coisas intrigantes com eles: tinham sua maldade, aliás bem grandezinha, mas gozavam de uma proteção paradoxal, de alguma força oculta que os defendia de tudo. Eram capazes de arrancar a bicadas os olhos das reses, atoladas pelos banhadais, no mês de agosto.

- E os animais deixam que eles arranquem os olhos?

- Que remédio! Lutam, batem com a cabeça, mas não podem correr, nem dar coices, com as patas enterradas. Vão cansando, perdem as forças e se entregam.

Eu imaginava nossas velhas vacas atoladas, gemendo de dor, com o buraco dos olhos em sangue, e tinha vontade de matar os desalmados, antes que isso acontecesse.

- Por que não trazemos a espingarda do tio Lourenço para acabar com eles?

- Porque não presta. A arma que deu tiro neles enferruja o cano...

Então, eu optava por umas pedradas. Mas nem isso era conveniente, a mão da gente secava...





Os tamanduás usavam uma espécie de colete e não tinham dentes. Em compensação, possuíam uma língua de dois palmos.

Eu estirava os polegares, unia a ponta de um contra o outro, espalmava bem as mãos e duvidava:

- Dois palmos? Para que um linguão desses? Dois palmos, não pode ser. Como é que isso vai caber na boca? Só se for enrolada, como um cipó.

-Aí é que está o segredo, ia dizendo mamãe. O focinho dele também é muito comprido. A língua é fininha, redonda, coberta de um visgo muito forte, para as formigas grudarem, que é o que eles comem...

-?!

Sendo fininha e comprida, pode entrar bem no fundo dos olheiros. O tamanduá introduz a língua na toca, as formigas se assanham e mordem. Quanto mais se assanharem e morderem, mais contente o tamanduá!

Pobre bicho, pensava eu, ter de comer assim, com a língua toda ferida. E imaginava que fosse um animal inerme, meio desprotegido pela natureza, sem dentes, sem uma defesa.

Mas ela corrigia o meu engano:

- Pelo contrário, o tanmnduá é valente e perigoso. Não tem medo nem de cachorro. Se atira no chão, de costas e fica esperando que ele chegue. Sc isso acontece, rasga-lhe a barriga com as unhas compridas c afiadas. Muito jaguara tem morrido perto deles com as tripas de fora... Nem mesmo de homem o tamanduá tem receio. Levanta, abraça a gente pela cintura e não larga mais.

(Que perigo andarmos sozinhos pela restinga, onde eles moravam em tocas e ocos de paus, onde às vezes vagavam, prontos para o abraço indesejável.)

Mas, enfim, também tinham a sua utilidade, porque destruíam as formigas, inimigos piores, que nos davam tremendos prejuízos e eram quase indestrutíveis.

-Todos os bichos, por mais inocentes e desvalidos que pareçam, têm suas defesas, dizia mamãe. E todos também têm sua serventia.

- Até o zorrilho que fede tanto?

- Sim, até o zorrilho. Por isso, apesar de tão pequeno, ele nunca foge dos outros. Chega até a persegui-los, em vez de se amedrontar. Ele sabe que até o cachorro que chegar perto dele vai abandonar a luta.

- Como assim?

- A arma do zorrilho é invencível. Um esguicho de urina que ele atira certeiro nos olhos de quem se aproxima.

- A urina arde nos olhos?

Ela detalhava:

- Arde, e é a coisa mais catingueira que existe. Nem os bichos agüentam o mau cheiro. Cachorro que recebe a urina do zorilho, perde o faro. Está estragada a caçada...

Depois me recomendava que não se devia matar o animal, porque ele tinha seu valor: caçava e comia as cobras, até as mais venenosas.

Nem mesmo os animaizinhos minúsculos deixam de ser perigosos: havia as aranhas, lacraias, a taturana, as vespas, os marimbondos. Destes pequeninos, um eu conhecia bem por experiência: era aquele formigão preto, de bunda luzidia, que andava num passinho nervoso como se estivesse procurando algo perdido. Anunciava-se por um tini-tini que soava à ferroada e nos fazia levantar subitamente da grama, porque só por vingança e de mau nos ferroava...

Assim, pouco a pouco, o círculo dos acidentes familiares ao rancho, cada vez melhor se definia na pluralidade das coisas em torno. E ele assumia a significação de unia comunidade fechada, contra a qual conspirava um feixe de elementos agressivos do exterior, sob as mais variadas manifestações: praga, doenças, geadas, tormentas, os animais selvagens rondando as trevas.

À noite, os terrores aumentavam. O fantasma do medo crescia na escuridão. As sombras fechavam-se em torno dele e pareciam afogá-lo.

Ainda bem que existia a luz. Na claridade ampla do sol, se derramando em tudo, tinha o condão de fazer o mundo ameno e amorável e até um simples candeeiro como o nosso era capaz de subjugar e banir os temores do desconhecido.

Origem: Livro "Pastoral missioneira" de Mozart Pereira Soares. Editora Movimento. 1994.

"Pastoral Missioneira" faz parte de uma trilogia escrita por Mozart chamada "Restauração da Manhã", que inicia-se com este livro, prossegue por "Tempo de piá" e encerra-se com "Meu verde morro".

Sobre Mozart, o atual vice-governador do estado, Antonio Hohlfelft, escreveu "Saber universitário com gosto campeiro", Editora AGE, 1997.

Publicado por Roberto Cohen em 12/12/2003.