Escultor Vasco Prado
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Zero Hora Digital

ARTES

Vasco Prado, vasto

“Porto Alegre é minha cidade”
Vasco Prado gostava de contemplar a Capital de sua casa no Morro São Caetano

VASCO PRADO
Depoimento a Eduardo Veras publicado
na seção Um Lugar de Porto Alegre, do
Segundo Caderno, em 11 de abril de 1994

        Aos 14 anos cheguei a Porto Alegre e nunca mais saí. Gosto de Porto Alegre. É a minha cidade. Sempre trabalhei aqui. O Morro São Caetano, porém, é uma descoberta recente. Antigamente, aquele espaço era campo. Era o que se chamava “fora da cidade”. Foi o crescimento urbano – a exploração imobiliária, o desenvolvimento de lotes e bairros residenciais – que aproximou o lugar. Eu nunca tinha ouvido falar do morro antes de 1985 ou 1986, quando fui morar perto do Hospital Espírita. O Morro São Caetano fica ainda além. É um dos pontos mais altos de Porto Alegre. O ponto mais alto em que se pode construir. Lá, estou erguendo o meu novo ateliê.

        

* * *

        Sempre gostei de olhar a cidade, a cidade toda. A visão do alto. Sempre procurei os lugares de onde pudesse enxergar toda a cidade. Agora, terei uma visão mais abrangente, do alto do São Caetano.

        

* * *

        Só aquela paisagem vale tudo. Trabalhar com a cidade a seus pés. Cada dia, tudo mudando. Cada hora do dia, uma luz diferente. Uma coisa cambiante. A temperatura, sempre dois graus mais baixa do que em qualquer outro ponto de Porto Alegre. O morro, a 240 metros acima do nível do mar. Lá de cima, vê-se todo o rio. Chamam rio, mas é outra coisa. É a continuação da Lagoa, estrangulada neste ponto. Na verdade, é um lago, o regime de águas é de um lago. O rio é apenas um nome. Como Pedras Brancas. Porque mudaram o nome da cidade para Guaíba? Pedras Brancas era um nome poético, bonito.

        

* * *

        Há muitos lugares de Porto Alegre que eu gosto, em que eu gostaria de morar. Quando vim para Porto Alegre, não morava em lugar nenhum. Morava no colégio, era interno no colégio militar. Estudei lá oito anos. Depois, fui para a Cidade Baixa. Morei na Rua da Margem, nos anos 40 e 50, onde havia um conhecido carnaval. Ali, tive meu primeiro ateliê, perto do riacho. O ateliê seguinte foi na Joaquim Nabuco. A casa está lá até hoje, em frente à Travessa Venezianos.

        

UM ESCULTOR DE FRASES
• “Um cabra com 80 anos, com 50 ou 60 de trabalho, não tem currículo. Dizer que fez mais de cem exposições, ora, vá amolar outro.”
• “Não faça 80 anos.” (a um jovem artista que lhe pediu um conselho)
• “O bom escultor é aquele que trabalha muito e acredita no que está fazendo.”
• “A função do artista é querer mudar o mundo.”
• “O desenho é a base de tudo. O desenho chama a forma. Sem desenhar, não se faz nada.”
• “Às vezes, eu passo em frente a um jarro, e ele me sugere uma forma. Fico pensando nela e, depois, desenho.”
• “Só eu sei o tipo de espátula e de lixa de que preciso. Então, faço eu mesmo.”
• “Sou um artista figurativo. Mas não um figurativo realista, que copia a natureza. Observo a realidade e procuro ir além.”
• “Quando se é velho, a gente esquece de três coisas: nomes de pessoas, fatos importantes e a terceira não consigo lembrar.”
• “Sou muito como o Mario Quintana: acho que é provinciano ir para o Rio de Janeiro ou para São Paulo.” (sobre sua permanência no Estado)
• “A história do homem foi feita em cima do cavalo, e é isso que minha obra reflete.”
• “Não tenho ligação com crítico algum e, sinceramente, não me interessa o que possam pensar sobre o meu trabalho.”
• “Amar não dói. Casar de 20 em 20 anos é bom. Sempre tive namoradas, sempre gostei muito das mulheres. Achava a mulher muito importante e acho cada vez ais.”


“Porto Alegre é minha cidade”

Vasco Prado, vasto

        Leia a seguir trechos de texto da atriz Nora Prado, publicado no jornal O Continente em agosto de 1989, sobre seu pai, Vasco Prado:

        Leia a seguir trechos de texto da atriz Nora Prado, publicado no jornal O Continente em agosto de 1989, sobre seu pai, Vasco Prado:

        Vasco Prado, vasto meu pai, um mistério soprando forte pelos ventos de Uruguaiana. Índio velho presente na carne antiga do barro, na mão constante de uma natureza ariana e por isso mesmo ardente, impulsiva e penetrante como seus cavalos. Tu és parecido com os teus desenhos, tuas linhas firmes e simples, porém completas, sucintas e diretas. Nada excede a exigência do próprio gesto, só há lugar para o essencial. E por isso és lindo e difícil, sobretudo por seres tão próximo. Impossível escrever a essa distância de filha sem escorregar pelos canais da memória e ceder ao pulso dos afetos. No entanto, é só o que eu posso te dar e a quem quiser saber, pois tua trajetória artística, tua obra, esta já está posta ao sol, há muito tempo, para quem quiser olhar.

        Eu e meus irmãos, Nando e Dadaio, tivemos a sorte de termos os pais sempre em casa por perto, pois sendo artistas eles funcionavam em seus ateliês junto da família. Do tempo da infância, na casa das Três Figueiras, guardo as melhores lembranças.

        – Pomba da Arca, Luz da Manhã, Estrela de Israel – declamava Vasco para mim com aquele olhar brilhante, quando o dia amanhecia azul. Ou então, quando chovia e, juntinhos no vidro da janela, bem abrigados do frio, dizia:

        – Tempo feio, Petiti!

        Esse seu lirismo temperado com uma certa dose de ironia e bom humor geravam nele frases insólitas, como quando, de repente, ao entrar na sala, anunciava:

        – Fui ali no pátio e ouvi o capim crescer!

        Daria um ótimo ator caso enveredasse pelo caminho do teatro.

        Esse seu senso crítico tão apurado é também seu fiel da balança, o seu termômetro para a arte. Seu forte aliado na sua percepção de mundo e de homem.

        

SAIBA MAIS
Vasco em livro
O marchand Cezar Prestes está organizando um livro sobre a vida e a obra de Vasco Prado. O autor busca recursos da legislação de incentivo à cultura para a publicação da obra. Cezar foi amigo do escultor e organizou em sua galeria a primeira mostra de bronzes do artista. Ele espera poder lançar o livro no próximo ano.
Boeira elogia talento
Talento múltiplo de escultor, desenhista, gravador e tapeceiro. Assim o secretário de Estado da Cultura, Nelson Boeira, definiu ontem Vasco Prado. O Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (Margs) ofereceu seu espaço para a realização do velório do artista. A oferta foi recusada pela família.
Pilla saúda o revolucionário
O jornalista e futuro secretário de Estado da Cultura, Luiz Pilla Vares, disse ontem que Vasco Prado tem importância para a arte mundial:
– Vasco é universal. Além de ter sido criador e revolucionário na arte, ele foi revolucionário na vida. A arte dele fica para sempre, assim como sua memória.


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