Escultor Vasco Prado
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Zero Hora Digital

ARTES

Morre o encantador de cavalos
O uruguaianense Vasco Prado, um dos mestres da escultura gaúcha, morreu quarta-feira, aos 84 anos

SANDRA SIMON

    A exposição de esculturas de Vasco Prado em cartaz no Margs será prorrogada até o final de janeiro (foto Genaro Jonedr, Banco de Dados/ZH – 14/1/94)

            Quarta-feira de calor sufocante em Porto Alegre. Vasco Prado acordou como sempre às 6h no silêncio do Morro São Caetano, na casa-ateliê que construiu há quatro anos, última casa de uma rua sem saída no morro mais alto de Porto Alegre. No ateliê onde passava os dias, um andar para o barro e as esculturas, outro para os lápis e os desenhos, trabalhou, reclamou, exigiu dos dois auxiliares, como sempre. Ao meio-dia tomou um tinto chileno, como sempre. Estava envolvido na execução de uma Vitória, uma escultura de cinco metros de altura que se ergueria na confluência das avenidas Praia de Belas e Ipiranga. Um novo símbolo para Porto Alegre talvez.

            Na quarta-feira, Vasco trabalhava no estudo da cabeça da maior mulher que teria esculpido e preparava peças para a exposição comemorativa dos 85 anos, em abril do ano que vem. À noite, adormeceu em frente à televisão. Às 22h50min, o coração de Vasco Prado parou.

            “Foi um golpe muito duro para os mais chegados, para os amigos”, diz Marcelo Moreira, secretário do artista há 16 anos. “Imaginávamos que ele era imortal.” No início dos anos 70, num ensaio realizado em seu ateliê, Vasco deixou no fotógrafo Ricardo Chaves uma impressão de doçura: “Ele falava baixo, era uma pessoa suave, sem nenhuma ansiedade aparente.”

            “Vasco é um monumento”, costumava dizer Iberê Camargo, que nasceu no mesmo ano que o amigo, 1914, e dividiu ateliê com ele na juventude. “Ele conhece muito a profissão, eu o consulto sobre muitas coisas”, admite Xico Stockinger, que segue agora em vôo solo como o grande nome da escultura gaúcha.

            “O meu trabalho é esse: cavalos, mulheres, torsos”, sintetizava Vasco. Trabalhava por prazer, não por fado, todos os dias. Reconhecia o desenho como base de tudo.

            A linha firme do mestre, que admitia ter começado copiando Michelangelo, traçava cavalos, mulheres roliças, o Negrinho do Pastoreio que descobriu nos contos de Simões Lopes Neto e que em suas mãos primeiro surgiu agonizante, crispado, depois voltou ereto, depois triunfante, depois portador do sol e da esperança. Vasco nasceu em Uruguaiana e morou em Minas e no Rio antes de voltar ao Rio Grande do Sul, aos 14 anos. Escolheu viver no seu Estado e dedicou a vida a dar forma em pedra, bronze e cerâmica às lembranças que guardou do pampa. “Aqui fiquei e não me arrependi.”

            Mais velho de cinco irmãos, pai militar, mãe dona de casa, fez Colégio Militar e começou a Escola de Belas Artes, que abandonou três meses depois. Virou autodidata, depois estudou no ateliê do grande Fernand Léger, em Paris, deu aulas no Atelier Livre e no Margs. No memorável ateliê da Pedra Redonda foi mestre de uma geração de artistas. Nos anos 50, ao lado de Carlos Scliar, Danúbio Gonçalves, Glênio Bianchetti e Glauco Rodrigues, fundou o Clube da Gravura, lendário núcleo de resistência e engajamento. “Sempre fui da esquerda. Nunca suportei as injustiças, os sofrimentos por que passa o povo. Na época, achava que poderia mudar alguma coisa”, proclamava, referindo-se ao ano de 1946, quando se candidatou ao cargo de deputado estadual pelo Partido Comunista Brasileiro mas não foi eleito.

            Cidadão do mundo, Vasco plantou obras públicas em praças e edifícios da Alemanha, Argentina, Brasil, Estados Unidos, França, Japão, Polônia e Uruguai. No ano passado, falsificações de sua obra foram denunciadas, no único caso do gênero já registrado em uma delegacia de polícia gaúcha.

            Para que o público se despeça e homenageie o artista, o Margs manterá pelo menos até 20 de janeiro a mostra de Vasco, com fim inicialmente previsto para o próximo dia 20.

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