Escritores Erico Verissimo  

Manual de Literatura Brasileira
Sergius Gonzaga
Editora Mercado Aberto

Erico Verissimo
Este cara de espinafre que te escreve na casa de Erico Verissimo - fev/1999

Nasceu em Cruz Alta, filho de uma família de estancieiros arruinados. Muito jovem, montou uma farmácia, falindo em seguida por incapacidade para a vida capitalista. Foi para Porto Alegre, onde acaba trabalhando na Editora Globo como revisor e tradutor. Sua estréia deu-se em 1933 com o livro de contos Fantoches, cuja edição foi destruída num incêndio. Os romances escritos posteriormente deram-lje fama. Depois de Jorge Amado, foi o maior sucesso de público conhecido na literatura brasileira.

I FASE

  • Clarissa (1933)
  • Caminhos Cruzados (1935)
  • Música ao longe (1935)
  • Um lugar ao sol (1936)
  • Olhai os lírios do campo (1938)
  • Saga (1940)
  • O resto é silêncio (1943)

II FASE

  • O Tempo e o Vento (1949-62)
    1. O Continente
    2. O Retrato
    3. O Arquipélago

  • Noite (1954)
  • O Senhor embaixador (1964)
  • O prisioneiro (1967)
  • Incidente em Antares (1971)
  • Solo de clarineta (Memórias, 1973)


I FASE

Os relatos de Erico Verissimo agrupados, em termos didáticos, no rótulo de I Fase são assinalados pelo absoluto domínio do espaço urbano, quer dizer, localizam-se no mundo citadino, em especial Porto Alegre, e revelam:

  1. O registro da existência - valores e costumes - de uma pequena burguesia que se tornava, pouco a pouco, o setor social mais representativo de Porto Alegre. Em regra geral, essa camada aparece sob tintas favoráveis. Pequenos burgueses são os personagens com quem o autor simpatiza: Vasco, Fernanda, Clarissa.

  2. Uma visão de mundo entre crítica e lírica. A burguesia é questionada, assim como o patriciado rural, em nome de uma ética pequeno-burguesa. A filosofia moral de Erico poderia ser esumida na fórmula do escritor Tônio Santiago, em O Resto é Silêncio: "Devemos criar um mundo de beleza e bondade".

  3. O aparecimento de mesmos personagens em várias narrativas. A dupla Clarissa-Vasco está presente em Música ao longe e Saga, já a dupla Noel-Fernanda surge em Caminhos cruzados e reaparece em Um lugar ao sol, onde também se presentifica a dupla Clarissa-Vasco.

  4. O uso inovador da técnica do contraponto, desenvolvida pelo inglês Aldous Huxley, de quem Erico traduziu o famoso romance Contraponto. Essa técnica consiste em justapor uma série de protagonistas e situações por eles vividas, sem que haja no texto um centro narrativo, uma síntese para onde tudo convergiria. Os "caminhos se cruzam", mas não tomam a mesma direção, ao contrário do romance tradicional. A técnica do contraponto foi utilizada especialmente em Caminhos cruzados e em O resto é silêncio.

  5. Uma linguagem tradicional, sem maiores inovações de ordem estilística, traço que permaneceria nos textos da II Fase.

Apesar da superficialidade de muitas de suas idéias e situações romanescas, havia nesses livros da I Fase momentos expressivos a indicar a presença de um grande ficcionista. Quando Eugênio se envergonha do humilde pai, por exemplo, em Olhai os lírios do campo:

"Eugênio viu um vulto familiar surgir a uma esquina e sentiu um desfalecimento. Reconheceria aquela figura de longe, no meio de mil... Um homem magro e encurvado, mal vestido, com um pacote no braço, o pai, o pobre Ângelo.Lá vinha ele subindo a rua. Eugênio sentiu no corpo um formigamento quente de mal-estar. Desejou - com que ardor, com que desespero! - que o velho atravessasse a rua, mudasse de rumo. Seria embaraçoso, constrangedor se Ângelo o visse, parasse e lhe dirigisse a palavra. Alcibíades e Castanho ficariam sabendo que ele era filho de um pobre alfaiate que saía pela rua a entregar pessoalmente as roupas dos fregueses... Haviam de desprezá-lo mais por isso. Eugênio já antecipava o amargor da nova humilhação. Olhou para os lados pensando em uma fuga. Inventaria um pretexto, pediria desculpas, embarafustaria pela primeira porta de loja que encontrasse. Ouvia a voz baixa e calma de Castanho "... o conceito hegeliano...". Podia entrar naquela casa de brinquedos e ficar ali escondido, esperando que Ângelo passasse... Hesitou ainda um instante e quando quis tomar uma resolução, era tarde de mais. Ângelo já os defrontava. Viu o filho, olhou dele para os outros e o seu rosto se abriu num sorriso largo de surpreendida felicidade. Afastou-se servil para a beira da calçada, tirou o chapéu.

- Boa tarde, Genoca! - exclamou.

O orgulho iluminava-lhe o rosto.

Muito vermelho e perturbado Eugênio olhava para a frente em silêncio, como se não o tivesse visto nem ouvido. Os outros também continuaram a caminhar, sem terem dado pelo gesto do homem."



No final de O resto é silêncio, o escritor Tônio Santiago, alter-ego do romancista, imagina umt exto que, certamente, seria a base de O tempo e o vento:

"No princípio eram as coxilhas e planícies por onde os índios vagueavam nas suas geurras e lidas. Depois tinham vindo os primeiros missionários; mais tarde, os bandeirantes e muitos anos depois os açorianos. Sob o claro céu do Sul processara-se a mistura de raças. Travaram-se lutas. Fundaram-se estâncias e aldeamentos. Ergueram-se igrejas. Surgiram os primeiros mártires, os primeiros heróis, os primeiros santos..."




Casa de Erico Verissimo
Casa de Erico Verissimo em Cruz Alta

Com seus filhos
Com seus filhos


II FASE

O TEMPO E O VENTO

A obra definitiva de Erico Verissimo começou a ser publicada em 1949. Trata-se de um romance gigantesco, uma trilogia dividida em O Continente, O retrato e O Arquipélago e que tem uma abrangência histórica de 200 anos, pois se inicia em 1745 e se encerra em 1945. A idéia dominante é a do romance cíclico, conforme atesta a epígrafe que abre a obra, retirada do Eclesiastes:

"Uma geração vai, e outra geração vem; porém a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. O Vento vai para o sul, e faz o seu giro par ao norteç continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos."

Há no texto um debate entre duas forças: a do tempo e a do vento. O tempo é a passagem, a destruição. O vento é a permanência, a memória. Nas noites de vento, sentadas em cadeiras de balanço, as mulheres lembram seus mortos. No romance, contudo, a vitória parece ser do tempo, pois a corrosão é geral. O que ficou da grandeza dos Terra-Cambará? Qual o sentido de tanta violência e de tanto sofrimento se, na passagem de décadas e séculos, o que restou foi apenas um punhal cravejado, última herança de um passado morto? Por isso, Floriano Cambará, no fim da narrativa, percebe que a única forma de resgatar e dar significado à saga de seus antepassados é fixá-los literariamente, como se apenas a arte - ao lado dos objetos - pudesse resistir à voragem do tempo e ao absurdo da vida humana.

O cíclico se dá pela sucessão das gerações de duas famílias-chave, os Terra e os Cambará, que se unem várias vezes pelo casamento. Na visão do escritor, funcionam quase como arquétipos dos indivíduos construtores do Rio Grande do Sul. Assim:

Terra
  • Perseverança, obstinação, amor à terra, permanência, força conservadora
  • Ana, Bibiana, Maria Valéria
Cambará
  • Generosidade, despropósito, sonho, aventura, amor pela liberdade e ação, irresponsabilidade
  • Capitão Rodrigo, dr. Rodrigo, Toríbio

Sobre esses personagens, Flávio Loureiro Chaves escreveu uma página exemplar:



"Uma crônica de sangue pontuada por sucessivas guerras, eis o cenário onde brota a gênese da Província de São Pedro. ao início de O Continente, no episódio de Ana Terra, o espaço físico foi inteiramente destruído após um ataque dos castelhanos que massacraram todos os homens válidos da fazenda de Maneco Terra. Sobre a imensidão do campo, duas mulheres e duas crianças sepultam seus mortos. Desses escombros surge a personagem de Ana Terra, armada de uma confiança absurda em si mesma, que se integra na caravana pioneira para fundar, muito distante, a vila de Santa Fé. Com ela segue o filho, que será o pai de Bibiana; e assim fica assegurada a continuidade da vida. A mesma intriga, distribuída por diferentes níveis de temporalidade, repete-se várias vezes na sucessão de gerações de Terras e Cambarás.(...)

Esta é a dialética que rege o universo ficcional de O Continente, reduzido à ação daqueles elementos primordiais que definem a natureza, o serhumano e seu lugar na História: o esforço para preservar um mundo continuamente desfigurado pela violência, fazendo-o ressurgir com redobrado vigor. Na personagem Ana Terra se reedita o primeiro dia da criação, a imagem primitiva da fecundação, enquanto antítese do instinto de morte: 'penso nela como um sinônimo de mãe, ventre, terra, raiz, verticalidade, permanência, paciência, espera, perseverança, coragem mora.' (...)

Há um estranho paradoxo em O Continente. Essa epopéia, cuja linha episódica foi traçada no encadeamento dos feitos guerreiros, parece ter sido escrita para reafirmar a insanidade da guerra. Enquanto a seqüência cronológica avança mediante lutas fatricidas de Cambarás e Amarais, gestos históricos de Licurgo e Cambará (Rodrigo), a visão de mundo do autor, sua crença nos valores permanentes, da vida, está expressa na saga de Ana Terra, nos silêncios de Bibiana."



ROMANCE HISTÓRICO

Ainda que seja um romance histórico, O Tempo e o vento não dá igual atenção a todos os segmentos sociais de Santa Fé. A ênfase do autor centra-se na classe que controlou a província desde suas origens até meados do séc. XX: a dos fazendeiros. As duas mil e tantas páginas da narrativa seriam desta forma uma visão panorâmica do Sul através de seus dominadores. Mas o romancista não apenas celebrou a aristocracia do pampa em sua obra-prima. Elogio e crítica alternam-se. E se Rodrigo Cambará é um gaúcho mitificado, o dr. Rodrigo Cambará representa com absoluto verismo o estancieiro típico.


A QUESTÃO TÉCNICA

Tradicional na linguagem, Erico Verissimo mostra-se extremamente criador na arquitetura técnica da trilogia. Há um jogo temporal de grande feito sugestivo que consiste na intercalação de episódios cronologicamente afastados, mas que vão lançando luz sobre a realidade narrada. Assim, no primeiro volume de O Continente, cenas do século XVIII intercalam-se com cenas que percorrem quase todo o século XIX.

Esse jogo entre passado e presente retorna em todos os volumes subseqüentes. O Retrato desenrola-se de 1909 a 1914 e focaliza os primeiros anos do jovem dr. Rodrigo, em Santa Fé. Já O Arquipélago acompanha o referido médico, junto com sua família, em especial com o seu filho Floriano, que é romancista, até a redemocratização, em 1945. O jogo temporal completa um círculo no final do terceiro tomo de O Arquipélago, quando FLoriano prepara-se para escrever uma narrativa baseada na vida de seus ancestrais. E a narrativa começa assim:

"Era uma noite de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado."

O começo do romance de Floriano termina o de Erico, mas - e eis a idéia do círculo, já presente na epígrafe da trilogia - o primeiro parágrado escrito por FLoriano é idêntico ao início de O tempo e o vento: "Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam..."



Manuscritos
Manuscritos encontráveis no Museu


OUTRAS OBRAS

Os demais romances de Erico Verissimo publicados após O tempo e o vento intensificam características presentes em obras anteriores, sobremodo a consciência liberal do escritor. Os textos ganham conotações políticas, em um sentido amplo.

O SENHOR EMBAIXADOR, cuja ação se desenvolve paralelamente na capital americana e na pequena republiqueta de Sacramento, dominada por uma ditadura corrupta e sanguinária, revela a figura de Gabriel Eliodoro. Caudilho, compadre do tirano, nomeado embaixador em Washington, mostra a ambigüidade clássica dos caudilhos - indefinição ideológica e carisma pessoal. Diante dele, o secretário da embaixada, um intelectual de origem burguesa, Pablo Ortega, é obrigado a definir-se. O letrado, no final do texto, torna-se homem de ação, participando do movimento revolucionário que derruba o ditador.


Em O PRISIONEIRO, o autor fomular indagaçoes morais e políticas sobr eo sentido da geurra e da intervenção de uma grande potência ocidental, não referida diretamente, no Sudeste asiático. Mas a leitura é óbvia: a Guerra do Vietnam. ALém da condenação ao imperialismo, o livro traz uma pergunta a respeito da tortura, isto é, se não seria legítimo utilizá-la em situações de emergência, como forma de salvar muitas vidas. Dentro do ideário humanista de Erico, a resposta naturalmente é não. Nada, nenhum princípio pode justifica a tortura.


Finalmente, seu último romance, INCIDENTE EM ANTARES, retorna à temática do interior, mas agora sob uma perspectiva crítica. Já não há lugar para homens como o capitão Rodrigo. O que existe é a violência do gaúcho, discutíveis conceitos de honra e exploração econômica. Através da luta de duas famílias tradicionais de fazendeiros, os Vacariano e os Campolargo, e do "incidente", uma greve de coveiros que deixa insepultos sete mortos - sendo que estes voltam para o mundo dos vivos, encontrando nessa volta apenas o engano, a mentira e a traição, Erico reflete sobre a realidade social e política do Brasil nos anos 60. É um líbelo contra o autoritarismo que impunha ao país um regime de sombras e de terror.



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