Sobre a ausência do jovem

Artigo de Prof. D. Jorge. F. Duarte Webber

AGRUPAÇÃO NATIVISTA GAÚCHA “MARTÍN FIERRO” (ANG-MF)

NÚCLEO DE ESTUDOS DA CULTURA GAÚCHA DO DISTRITO FEDERAL (NEG-DF)

Y si mando esa advertencia ya sabida
no es por darle más bulto a la verseada,
es p’ aquellos que creen que pa’ ser criollos
solo basta compulsar una encordada.
(Pa’ que dentre, José Larralde).

Na abertura da V Convenção da Federação Tradicionalista Gaúcha do Planalto Central (FTG-PC), ocorrida em novembro de 2006, no Centro de Tradições Gaúchas “Jayme Caetano Braun” (CTG-JCB), ao proferir suas palavras de abertura na qualidade de Presidente do conclave, um conhecido tradicionalista deixou bem claro o fato de estranhar a ausência do jovem naquele evento. Permito-me não citar o nome do referido personagem, porque o que interessa não é a pessoa, mas o fato em si; não o sujeito que fez a afirmação, o orador, mas o discurso que ele proferiu e o que subjaz por trás do cenário. Interessa a formação discursiva, pois os processos discursivos são diferenciados de acordo com processos ideológicos que os determinam. Para tanto, é necessário adotar uma concepção crítica de linguagem que a veja dotada de uma historicidade e perpassada pela ideologia, as quais caracterizam relações essenciais para se detectar o sentido, relações que, ao contrário da língua, não estão disponíveis ao observador desprovido de um determinado arsenal teórico de análise.

O jovem aparece nos grupos de dança e nas competições campeiras e desportivas, para ganhar troféus para seus CTGs e envaidecer seus pais, ou para trabalharem, gratuitamente, de garçons ou em outras changas, nos churrascos mensais abertos à comunidade, explorados pela Patronagem, que parece desconhecer o Estatuto da Criança e do Adolescente. Ao menos, na Invernadas Campeira e Esportiva, a gurisada se diverte e se junta com seus pares de outros CTGs, numa verdadeira integração, ao passo em que na Artística prevalece a rivalidade e a cobrança, a obrigação de vencer e se mostrar melhor que os demais.

Não discordamos da necessidade de termos o jovem engajado plenamente, trabalhando conosco, ombro com ombro, “golpe a golpe, verso a verso” (nas palavras do poeta espanhol Antonio Machado), mas, antes, é mister plantear um problema básico a meu ver: Como o Tradicionalismo quer que o jovem compareça a eventos tão cheios de proibições e frescuras (sem falar nas patacoadas, rapapés e salamaleques) que os transformam em algo intragável? E isso provoca aversão, asco e rechaço não só no jovem, pois consegue afugentar também os mais velhos, pelo menos os que não coadunamos com esse Tradicionalismo hierarquizado, engessado por uma série de normas absurdas, e ritualizado como uma espécie de maçonaria.

Sabemos de antemão que o Tradicionalismo nunca parou para perguntar o que o jovem quer. Não falo aqui em perguntar-se a si mesmo (pois os velhos sempre acham que sabem o que os jovens querem, por já tê-lo sido um dia), mas, sim, auscultar a juventude em geral, abrindo verdadeiros canais democráticos de diálogo, através dos quais o jovem manifeste-se livremente, e garantindo que suas críticas, reclamações e sugestões sejam levadas a sério e não esquecidas na gaveta, como sói ser. Também não me refiro aqui àqueles pobres “robozinhos” aparentemente lobotomizados, sem vida cerebral autônoma da de seu pai e independente da barra da saia da mãe, que soem ser miniaturas de seus progenitores boçais, ao invés de serem eles mesmos. Tais moços, infelizmente, são, no mais das vezes, meros recitadores das burrices de seus pais, estações retransmissoras dos bolaços das gerações predecessoras, reprodutores da estupidez entronizada há tempos no mundo, sem transcender seu mundinho bitolado.

Este tradicionalismo (obtuso, ultrapassado e retrógrado) que a cúpula da CBTG pretende massificar – defendido pelas pessoas com uma “cabeça antiga” e uma cosmovisão vetusta, démodé, que ocupam cargos de direção – não atrairá jamais a juventude, porque ela foge de normas cheias de proibições e impedimentos, que porejam uma equivocada visão de cultura, e de rituais antiquados e anacrônicos, tais como hastear e arriar bandeiras e aquele senta e levanta para cantar hinos (sem falar nos discursos longos e chatos), numa busca infrutífera por ressuscitar as aulas maçantes de Educação Moral e Cívica dos tempos do governo militar. Isso é ainda mais impensável num país onde a mídia diariamente evidencia escândalos envolvendo altos dirigentes e a corrupção assola todos os poderes e esferas da administração pública – e não é de já hoje!

E esse mesmo dirigente – figura controverdida em nosso meio – ao qual me referi mais acima, certa feita reclamou (segundo confidenciou-me um associado do supracitado Centro de Tradições), de um jovem casal que estava namorando do lado de fora do galpão do CTG, sem dar importância à palestra que ele proferia lá dentro. Mas quem não o conhece que o compre! A meu ver, suas palestras carecem de autoridade ex-cathedra e fundamento conceitual e teórico-metodológico, além de ser um personagem controverso dentro do MTG-DF. Não é à toa ele ter reclamado, em outras ocasiões, de suas palestras ou aulas obterem pouca audiência ou terem sido abandonadas no meio. O certo é que ninguém pode ser obrigado a assistir uma palestra maçante ou uma aula mal dada, onde transparece a superficialidade dos conhecimentos fragmentados e desconexos de quem quer bancar o professor ou passar-se por perito sem dispor dos recursos didáticos e do background teórico-metodológico necessários para tanto.

A esse respeito, há muito, venho alertando: há vários “picaretas” e “atochadores” no meio tradicionalista; connaisseurs versados em peanuts e saberes folhetinescos, amateurs ou aficionados dotados apenas de uma erudição ornamental (outros nem isso!), que se presumem de historiadores ou folcloristas e que, por este motivo, colocam em risco de descrédito e/ou saturação toda a produção séria e criteriosa daqueles que receberam formação específica e obtiveram o diploma que os habilita a usar título outorgado por instituição de ensino superior. Isso deriva do vazio cultural que existe no meio Tradicionalista, caldo de cultura para o achismo, a invencionice e o disparate, pois “em terra de cego, quem tem um olho é rei”, como diz o velho ditado.

O jovem com algum conhecimento revolta-se quando vê que seu CTG aceita, de forma passiva e acrítica, diretrizes emanadas dos órgãos superiores do MTG, sabendo que, muitas vezes, elas nos vêm eivadas de imprecisões conceituais, falhas teórico-metodológicas e/ou grosseiros erros epistemológicos, por culpa do diletantismo e da filodoxia que ainda pulula, lamentavelmente, nas sarjetas do Tradicionalismo Gaúcho. Por isso, venho, há muito, batendo na mesma tecla de que é preciso que os CTGs e as Federações escolham melhor seus diretores culturais (vaqueanos, posteiros ou agregados), evitando, assim, os medíocres e os mal-intencionados, os que se escondem por trás de uma falsa erudição. Com isso, tais entidades alienam-se dos objetivos precípuos de seu Estatuto e de sua razão de ser: a salvaguarda da autêntica cultura gaúcha. Daí a evasão do jovem, que se decepciona com um CTG que ama e, no entanto, não é seu, mas de uns poucos que mandam e desmandam (com arrogância e prepotência), estribados em disparates, meias-verdades, mitos e ideologias (no sentido althusseriano de falsa-consciência) mistificadas e dogmatizadas.

Entretanto, tais pseudointelectuais desempenham um papel ambíguo: enquanto, por um lado, ajudam a divulgar, ensinar e difundir o Tradicionalismo Gaúcho, por outro, matam-no ao poucos, porque tomam uma atitude misógina, colocando-se contra as mudanças que irão aperfeiçoar, atualizar e purificar o MTG, no que couber faze-lo. Isto acontece porque desconhecem uma simples verdade: a cultura está em câmbio permanente, embora seus ritmos variem conforme as conjunturas, sendo, às vezes, tão lentos, que chegam a ser imperceptíveis, dando a impressão de estagnação ou ausência completa de movimento. Daí tentarem impor ao jovem a visão hegemônica do Tradicionalismo (conservadora), sua moral decadente e sua ética ultrapassada, a fim de perpetuarem-se no poder. Mas, por mais paradoxal que isto pareça, eles mesmos acabam por propiciar a nova seara, porque acabam tornando-se símbolos vivos daquilo que o jovem abomina no Tradicionalismo e que, no devido tempo, será substituído e descartado.

Além disto, aquela reação do referido dirigente também pode dar a falsa impressão de que o Tradicionalismo ignora (ou escamoteia) o amor, quando proíbe, por exemplo, o beijo entre namorados dentro do galpão e não permite um casal dançar colado num baile (o par tem que observar a distância do antebraço) – condutas vistas como impróprias ao vetusto decoro tradicionalista, principalmente pelos hipócritas, os falso-moralistas (que pretendem pregar moral de cueca), os carolas e as beatas (muitas vezes infelizes, mal amadas). Para certos tradicionalistas, prevalece a ética do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Aliás, há os que recitam, ad nauseam, a sentença dogmática: “É, mas, antigamente, era assim lá fora”, como se o tradicionalismo fosse uma espécie de renovação do prazo de validade de regras vigentes apenas em nichos isolados, mas já em desuso e esquecidas (ou nunca vistas) pelos mais novos.

A proibição de dançar colado deriva da rígida moral burguesa prevalecente na Era Vitoriana, que também suprimiu o decote e baniu as cores vivas, “quentes” e alegres, dos trajes femininos. Tais tradicionalistas desconhecem que, nos bailongos de ramada de antanho, as pessoas casadas bailavam “pegadas”, os noivos nem tanto e os namorados nem pensar, guardando uma respeitosa distância. Mas isso era antigamente. Depois das músicas lentas dos “hi-fis” da década de 70, muita coisa mudou! Hoje, em pleno Terceiro Milênio, isto já não se aplica e chega a ser ridículo o esforço inútil que fazem para retroceder o bonde da história. Não há desrespeito em se dançar colado no Século XXI, senão na cabeça caduca das pessoas maliciosas, que vêem safadeza em tudo. Falta-lhes o mesmo “simancol” que aos dirigentes tradicionalistas conservadores, que, se fossem tão gaúchos como se acham, saberiam que na campanha, se dança bem abraçado sim, como atestam as fotos do livro Chamamé – um modo de ser, do Pe. Julián Zini (um padre!).

Além disso, os CTGs que conheço andam tomados de uma politicagem do tipo mais sujo e rasteiro, dividido em facções irreconciliáveis, que usam dos expedientes mais vis, calhordas e mesquinhos para a dominação e a perpetuação de seus compinches no poder. É tanta fofoca que nos tapa de nojo! Tira-nos o prazer de freqüentarmos aquilo que deveria ser uma extensão de nossa casa, um são e agradável local de encontro de, se não amigos, ao menos conterrâneos que curtem uma boa charla, regada a mate amargo e trago, com comida típica e a nossa autêntica música regional gaúcha (seja na vertente nativista, seja fandangueira), que tanto bem fazem à alma chucra de um desgarrado do pago.

Essa e outras patacoadas só vêm atuar como fator de desestímulo para o jovem (nosso futuro), que passa a preferir os bares e points da moda, por não ter opções de lazer compatíveis com sua idade e inteligência. Ele não quer aborrecimentos, chatices nem bobagens, nem sente prazer em freqüentar um lugar onde só tem gente fanática (seguidora daquele tradicionalismo etnocêntrico, segregador, machista, chauvinista, homofóbico e misógino), com uma weltanschauung (cosmovisão) errônea, ou pessoas atrasadas, com idéias ultrapassadas, retrógradas, reacionárias, vetustas, contrárias ao zeitgeist, o espírito de seu tempo. O jovem quer estar “numa boa” e ele é quem está certo. Deveríamos, nós os homens maduros (quanta pretensão pensar isto... uns nunca amadureceram, outros já apodreceram por dentro), seguir seu exemplo!

Não é à toa que muito jovem que dança em Invernada Artística – uns estão lá só para agradar os pais e outros vão forçados pelos mesmos, mas ambos de modo algum se sentem bem no CTG – tira a pilcha (que muitas vezes não passa de mera fantasia) ao findar uma apresentação, como se ela fosse uma casca ou algo exterior, que não faz parte dele, porque não se sente engajado naquilo que é coisa só do seu pai. Tal jovem, assim que fica maior, desaparece daquele ambiente hostil (para ele), expulso por uma reação aversiva muito forte, devido às experiências nada motivadoras e, até, traumáticas.

Também nos damos conta que, ao confrontarmos o Código de Ética do Tradicionalismo com o Regulamento do Departamento Jovem, os Regulamentos de Prendas e Peões da CBTG e o Projeto intitulado, equivocadamente, “O Jovem e a Cultura Tradicionalista” (deveria chamar-se “O Jovem e a Cultura Gaúcha ou a Ideologia Tradicionalista”), há um ranço de Juventude Hitlerista (de direita) ou de Festival Internacional da Juventude e dos Estudantes (de esquerda) nessas páginas, funcionando como fator de repulsa, mantendo o jovem afastado daquilo que lhe parece uma armadilha.

Essa estória tão batida de dar responsabilidade ao jovem soa como “dar tanto serviço a ele, que não terá tempo de refletir, de usar a cabeça”, porque ele deve ser simplesmente jogado na máquina que o irá engolir, processar, pasteurizar e reificar. Mas se o Tradicionalismo (não esse reacionário e ritualizado) quer o jovem participando ativamente, interessado e motivado, lidando junto com os mais velhos na construção do futuro, deve deixar os jovens viverem plenamente a sua juventude, para não se tornarem adultos amargos ou sem sabor, amadurecidos antes do tempo, como melancias de baraço torcido. Mas, felizmente, o jovem de hoje é muito mais vivo e bem informado do que nós, em nossa adolescência, graças aos avanços tecnológicos aplicados à educação e à comunicação de massa. Daí eu ter certeza de que ele não se deixará cair na trampa tão facilmente, apesar das belas e enganosas palavras.

O engraçado é que falam que querem o jovem dentro do Tradicionalismo, mas quando um peão ou uma prenda convida seus amigos do colégio ou da faculdade para participar de uma festa ou churrasco do CTG, sempre tem alguém da patronagem para dizer àquele guri ou guria para, quando seus amigos voltarem ao Centro, que eles não venham com as mesmas roupas cotidianas – no fundo os conservadores querem que os jovens vistam algo mais “careta”, mais de “coroa”, porque o meio tradicionalista pretende ser um universo paralelo à sociedade onde os jovens e suas famílias vivem o seu dia-a-dia. Ou seja: o CTG não aceita o mundo onde está inserido, como se fosse microcosmos à parte que repudia a moda em voga, porque esta lhe parece demasiado escandalosa e libidinosa, atacado muitas vezes de falso pudor. Mas a verdade é que “o hábito não faz o monge”, como diz outro velho e sábio ditado. Assim, nem todo rapaz que usa brinco ou piercing é “puto” (maricas) ou drogado; nem toda moça que usa minissaia ou calça com o cós baixo é permissiva ou “galinha”, como nem todo tradicionalista que anda bem pilchado é gaúcho autêntico (tem muito gaúcho do asfalto ou paisano dominguero que segue todas as normas da CBTG, mas nem por isto é bem crioulo)!

Capítulo aparte merece o uso de tranças e do rabos-de-cavalo (ou coletas, em espanhol), pois, ao contrário do que muito patrão de CTG pensa, os gaúchos antigos eram melenudos sim, como atesta o eminente pesquisador uruguaio, Fernando O. Assunção, a maior autoridade no assunto. Sobre as tranças, que podiam ser laterais, com os cabelos que pendiam das têmporas, ou uma só, na nuca, ele transcreve um relatório policial de 1791: “Cortaram-lhe a trança única do cabelo com o sabre e tem para si que foi o Tomás, ao dizer: agora vou te tosar que nem cavalo” (ibid.: 33). Também menciona o cabelo atado em rabo-de-cavalo, ao tratar do lenço: Na cabeça, de cabeleira longa e geralmente atada em uma trança atrás ou um rabo-de-cavalo, um lenço grande de seda ou de algodão, de cores vivas, sujeito em triângulo, cobrindo o crânio e a testa, com as pontas atadas na nuca, ou flutuando ao redor da cabeça e da cara, atado sob o queixo (ibid.: 38 et passim).

A respeito dos brincos – objeto de polêmica em um CTG do RS, onde a truculência de alguns bacudos desinformados que se crêem donos da verdade e do Tradicionalismo, o qual, pode, desta forma, desservir à sociedade –, informa Assunção que estes podiam ser usados em uma ou nas duas orelhas (1985: 40), herança dos marinheiros que singravam o Mediterrâneo, colhendo e transportando “heranças de não menos de vinte e oito culturas do perímetro daquele velho Mare Nostrum” (ibid.: 28), que desembarcaram com eles em Montevidéu, Buenos Aires, Rosário e outros portos, em suas passagens pelo Rio da Prata, fazendo contrabando. Ele arrola como provas disto as inúmeras palavras trazidas da vida de marinheiro, tais como as palavras rancho e flete, as expressões ilha de árvores, praia do rodeio, enseada de campo e costa do mato ou do alambrado, o jogo da taba e outras influências.

Daí opera-se um processo de decantação às avessas, porque aqueles jovens que discordam desse estado deplorável de coisas, ou dos rumos tomados por esse Tradicionalismo Gaúcho obtuso, numa radicalização conservadora, acabam por afastar-se, indignados, desiludidos, enojados, revoltados, ao invés de canalizarem suas energias para um projeto de mudança que atenda seus anseios, levado a cabo por gente compromissada com os novos tempos e não com as velhas oligarquias reacionárias, ainda hegemônicas no Tradicionalismo. Total, esses jovens não sentem o CTG como deles mesmos, porque nunca os levam a sério (raramente pedem suas opiniões), além de serem, de antemão, votos vencidos, pois, pelo Estatuto do Centro, somente seus pai têm direito a voto.

Por tudo isto, não podemos estranhar a ausência dos jovens em eventos como as Convenções Tradicionalistas, pois sentem o cheiro de algo podre, sem saber, no entanto, que há algo muito pior, mais perverso, por trás de tudo: pretendem impor-nos uma falsa tradição gaúcha, através de normas, regulamentos e manuais que carecem de autoridade e legitimidade, porque eivados de erros e impropriedades teórico-metodológicas e filosóficas, posto serem fruto, no mais das vezes, daquilo que denomino de exercício ilegal de ciências como a Antropologia, Sociologia, História e outras.

Não venham estes pretensos “donos” do Movimento (que é de todos nós e não de uns poucos apenas), querendo enfiar-nos goela abaixo seus princípios éticos de moral duvidosa, baseados em filosofias idealistas, há muito, ultrapassadas e paradigmas científicos já falseados. O Tradicionalismo Gaúcho não deve ser confundido com a reação conservadora, embora haja muitas pessoas retrógradas entre nós. Esse Tradicionalismo que a atual cúpula da CBTG e das Federações sob sua influência pregam é contrário ao gauchismo! Além disso, a Cultura Gaúcha é muito maior do que aquilo que os Regulamentos da CBTG, do MTG-RS e da FTG-PC pretendem encerrar ou delimitar!

Por isso somos contra qualquer norma proibitiva, ainda mais se promulgada com equívocos graves, porque feitas por pessoas sem autoridade ou habilitação para tanto. É preciso antes, ensinar o certo. A impressão de manuais é um bom caminho, mas é preciso que eles não contenham erros, o que, para tanto, precisará passar pelo crivo de uma comissão douta, formada por pessoas qualificadas para o trata com assuntos tão importantes.

Por isso somos contra toda essa baboseira positivista que ritualiza o Tradicionalismo Gaúcho, essa papagaiada que afasta não só o jovem, mas também outros associados que possuem uma bagagem intelectual de fundamento e não tenham sido contaminados ou bitolados pela lavagem cerebral desse Tradicionalismo conservador!

Também somos contra a carnavalização festivaleira do gauchismo, transformando-o num oba-oba para turistas, com trajes nada autênticos e uniformizados, e artes de projeção folclórica estilizadas (danças que parecem balés) que não refletem, com fidelidade e pureza, o espírito da nossa cultura popular rural.

Por isso sempre defendi uma postura mais flexível por parte dos CTGs no tocante aos trajes típicos gaúchos, sem, é claro, fazer concessões (não me refiro aqui à equivocada taxonomia proposta por outro dirigente tradicionalista – um ideólogo com vasta bagagem intelectual, pessoa a quem admiro e respeito, embora discorde dele em muitas coisas), aos trajes em nada autênticos, estilizados e uniformizados, e às artes de projeção folclórica que não reflitam, com fidelidade, o espírito puro da nossa cultura popular rural.

Provavelmente por não aceitar este estado de coisas, eu sempre tenha sido visto como uma ovelha negra do Tradicionalismo no DF. Mas, por sorte, fiz escola e, hoje, muitos jovens começam a ver que a Cultura Gaúcha é muito mais do que isso que os tradicionalistas retrógrados a reduziram; ela é rebelde e inconformada como a juventude, tal como retratou, de maneira magnífica, o grande poeta oriental Serafín J. García, em seu imortal poema Orejano, constante da obra Tacuruses (1936), cujos principais versos (traduzidos por mim) deixo, aqui, como exemplo:


Eu sei que no pago sabem que eu sou,
porque os que mandam não les cabresteio;
porque, desprezando as trilhas alheias,
sei abrir caminhos pa’ ir onde eu quero.

Porque nunca me viram lambendo a canga,
nem andar pedindo esmola pa’ ganhar uns trocos,
e sabem de sobra que sou duro de boca
e não me sujeita nem mesmo um freio muleiro.

Porque, quando tenho que cantar verdades,
las canto direito nomás, a lo macho,
mesmo que essas verdades mostrem bicheiras
aonde ninguém acreditava ter varejos.

(...) Porque não me enchem com quatro mentiras
os bacanas bem falantes que vêm, do povo,
elogiando divisas já desmerecidas
e fazendo promessas que nunca cumpriram.

(...) Porque meus guris los criei infiéis
por mais que o padre grite que irão pro inferno,
e digo, onde pra quem quiser, que pa’ nada serve
aqueles que só vivem pedindo pro céu.

(...) Por isso lá no pago sabem quem sou!
Porque entre os ceibos estorva um quebracho!
Porque a todos eles les puseram marca
e têm inveja de ver-me orelhano!

E a mim que me importa? Sou chúcro e livre!
No sigo caudilhos nem em leis me atraco!
E vou pelos rumos claros da minha vontade
e não preciso de ninguém pa’ ser meu vaquiano!

Disse o grande intérprete argentino José Larralde, na milonga intitulada Permiso, algo que vai bem de encontro ao que eu penso ser meu dever: Dicen que soy mal hablao porque miro y no me callo, porque penso que son muchos los que sienten y se callan de prudentes o por temor a la biaba. De mim, dizem que, por amargo, só sei criticar. Mas não é bem assim. Sei reconhecer o que está bem feito. No entanto, penso que detectar o que precisa ser consertado é o que faço de melhor. Ademais, para elogiar, hay gente em pila, como pa’ tirar p’arriba y llorar a moco tendido, como dizem os castelhanos.

Não critico para ofender, pois não sou movido por mágoa ou ressentimento pessoal, embora doa ver meus esforços de mais de um quarto de século servindo ao Tradicionalismo em Brasília irem por água abaixo, graças aos medíocres e os ignorantes, de um lado, e aos canalhas e os presunçosos, de outro. Também não sou desses críticos de plantão que jamais contribuíram para com a causa tradicionalista, a qualquer título ou em qualquer tempo, mas não titubeiam em menosprezar patronagens, assinalar erros em seu CTG, na sua RT ou na FTG-PC, ou denunciar quaisquer "atentados" cometidos contra a cultura gaúcha, sem aportar nada em troca, muito menos soluções, qual iconoclastas.

Podem alegar que ando sumido, omitido-me ao não comparecer para aportar o meu grão de areia. É verdade que ando desaparecido. Me mandei a mudar porque tenho estômago sensível e não consigo ver certas cosas que fazem em nome do Tradicionalismo sem ficar enojado. Me dá asco ver os caolhos e os conservadores mandando e desmandando sem que ninguém lhes dê um basta. Mas não deixo de contribuir e esse texto é prova cabal disso; o meu capital é intelectual e é com ele que procuro enriquecer o gauchismo.

E não critico porque sim nomais, mas para o bem do Tradicionalismo. É preciso alguém que aponte seus erros a partir do seu próprio interior, para que possa ser aperfeiçoado constantemente, aparando-se as arestas que sempre surgem como conseqüência do seu desenvolvimento natural. Mas esse alguém precisa ter fundamento, conhecimento, experiência e compromisso. Por isso que escrevo com a intenção de polemizar, meio fazendo vez de advogado do diabo, para provocar o debate, convocar à reflexão, preparar para a tomada de consciência, no intuito de consertarr o que está errado e melhorar o que pode ser aperfeiçoado, apesar de acharem que sou uma ovelha negra do tradicionalismo, um rebelde sem causa, um renegado, um desgarrado do rebanho – talvez, por esse motivo, nunca me levaram a sério, preferindo dar ouvido àqueles com quem podem contar, embora tenham um olho apenas, nesta terra de cegos.

Não sou o dono da verdade (que esperança!) e tenho muito que aprender ainda. Mas minha formação acadêmica e minha experiência de mais de um quarto de século no tradicionalismo (apesar de eu ser nativista) capacitam-me a polemizar, com muita autoridade, o tema de que trato aqui. Esse é, para mim, o papel mais importante do intelectual, que deve, sobretudo, conscientizar, fazer pensar, refletir e tomar posição, preparar para a ação positiva.

Sobre isso, já dizia o filósofo polonês Leszec Kolakowski que todas as sociedades têm dois tipos de homens: os sacerdotes e os bufões: os primeiros “são aqueles que sacralizam o existente e colocam o selo de verdade absoluta no conhecimento que circula como moeda corrente. Sua missão é preservar o passado e enrijescer o presente” (Alves, 1982: 78). Já o bufão faz troça com o que é considerado sagrado. Mas o autêntico filósofo, segundo Kolakowski, não deve só denunciar, acusar, criticar e contestar; deve, além disso, apresentar elementos de análise e reflexão, para dar conta do problema levantado.

E nisso, precisamente, reside a principal função do presente texto, pois, em minha trajetória, sempre procurei manter uma atitude como a do filósofo alemão Emmanuel Kant, que dizia a seus alunos: “Não lhes pretendo ensinar tal ou qual sistema filosófico, mas ensinar-lhes a aprender a filosofar por si próprios, a formar uma opinião própria” (Pileti, 1997: 16). Ao invés de dar o peixe de mão beijada, atitude paternalista menos produtiva a longo e médio prazos, prefiro ensinar a pescar.

O fazer filosófico é um trabalho de reflexão, o que significa, pois, retomar, reconsiderar, revisar, examinar detidamente, prestar muita atenção em todos os detalhes, nuances e possibilidades, analisar com cuidado e rigor teórico-metodológico, sistemática e profundamente, indo até as raízes (daí ser radical) ou fundamentos da questão, numa perspectiva de conjunto, vendo cada nexo seu com o contexto onde está inserido o problema.

Ao questinarmos os conhecimentos dos quais, comumente, uma classe hegemônica lança mão para explicar as práticas cotidianas de um grupo ou sociedade, é comum provocarmos a ira de reis e sacerdotes e seus vassalos fiéis. Nietzsche dizia que sua tarefa era fazer com que os homens se sintam desconfortáveis. Mas isso porque a Filosofia não pretende ser edificante, reconfortante, sacralizante; sua vocação é ser iconoclasta.

A esse propósito, me lembro de um grande missioneiro, don Cenair Maicá, que, em sua milonga Canto dos Livres, cantava: “Hai os que cantam desditas de amores, por conveniência, agradando os senhores”. Essa é a postura que encarna o Velho Viscacha, personagem de José Hernández na obra máxima do gauchismo, o imortal poema Martín Fierro, postura oposta à do bufão. Já eu, canto opinando, que é meu modo de cantar, tal como o personagem Martín Fierro. Como disse don José Larralde: son verdades las que digo, aguanten si son varones!

Brasília/DF, 27/IV/2007.

Prof. D. Jorge Frederico Duarte Webber*

BIBLIOGRAFIA


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BRAZ, Evaldo Muñoz. Manifesto Gaúcho. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2000. ____________ Retratos do Gaúcho Antigo – a Gênese de uma Cultura. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2002.

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PILETI, Claudino. Filosofia da Educação. São Paulo: Ática, 1997.

REBOUL, Olivier. Filosofia da Educação. 7a ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, l988.

SAVIANI. Demerval. Educação: do Senso Comum à Consciêrncia Filosófica. 11ª ed. Campinas: Autores Associados, 1993.

NOTA (*):

O Prof. Webber, conhecido pelo pseudônimo El Chango Duarte, é Licenciado e Bacharel em História, com especialização na área de Imaginário, Cotidiano e Discurso pelo Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIS) da UnB, além de graduando de licenciatura em Ciências Sociais e bacharelado em Antropologia, pela mesma Universidade. Este porto-alegrense é funcionário público federal e, nas horas vagas, dublê de músico, poeta e cartunista. Militando no MTG-DF desde 1981, é o fundador Nº 9 do Centro de Tradições Gaúchas “Jayme Caetano Braun” (CTG-JCB), do qual foi Posteiro da Invernada Cultural várias vezes, além de ter sido também Diretor-Geral do Departamento de Cultura e Tradições Gaúchas da Estância Gaúcha do Planalto (EGP). Em 2006, fundou o Núcleo de Estudos da Cultura Gaúcha do Distrito Federal (NEG-DF) e a Agrupação Nativista Gaúcha “Martín Fierro” (ANG-MF – mantenedora do primeiro).

----- Original Message -----
De: Jorge Frederico Duarte Webber
Enviada em: segunda-feira, 7 de janeiro de 2008 13:26
Para: 'Roberto Cohen'

Amigo Macanudo:

Lo prometido es deuda!!! Aqui está o texto devidamente revisado e corrigido... algum erro pode ter passado, porque é muita cosa pr’uma cabeça (pa’ pior oca como a minha!) só... Oxalá te guste a ti e aos teus leitores e que seja de muito proveito.

Um baita abraço desde Brasília...

El Chango Duarte.

Publicado em 14/06/2008 por Roberto Cohen