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Tuquinha e uma volta de avião



Fonte
Livro "Causos do Tuquinha", de Luiz Morvan Grafulha Corrêa. Produção Independente. 2002.

O sonho do Tuquinha era andar de aeroplano.

Quando, por acaso, algum sobrevoava a fazenda, o homem era acometido de uma loucura. Ficava, provavelmente, lembrando de uma vez, quando peão, de uma fazenda lá no Alegrete, um dia, por farra, laçara um teco-teco, que andava dando razantes sobre o gado e assustando a criação. Só podia ser.

Um domingo não agüentou. Acordou mais cedo que de costume. Banhou-se na sanga de águas frias que serpenteava por trás das casas, pois afinal, chuveiro quente era coisa de maricas. Barbeou-se de navalha, vestiu bombachas brancas novas e camisa vermelha. Amarrou o lenço no pescoço, pôs as esporas de andar na cidade, aquelas de rosetas pequenas. Botou um troco na guaiaca, a guaiaca na cintura e tomou o rumo da cidade. Ia andar de aeroplano. E provar.

Chegou perto do meio-dia à cerca externa do aeroporto. Encostou-se na tela e ficou olhando, extasiado, aquele vai e vem de aeronaves. 0 coração parecia querer escapar-lhe do peito. Um pouco, por emoção... Outro tanto, por cagaço...

Comeu um pedaço de lingüiça que trouxera por baixo da camisa e esperou...

Lá pelas tantas, depois de encomendar a alma ao santo mais forte, meteu o bico da bota na cerca e saltou tela e arame farpado de um embalo só. Estava no potreiro dos bichos. Dos aeroplanos. Escolheu um, paradito perto de um galpão, que uma placa indicava por hangar e foi se chegando, pisando manso como quem pega urubu pelo pescoço, prá não assustar a ave.

0 piloto estava nos últimos preparativos, fazendo a checagem externa para dar um vôo.

- 0 que é que manda gaudério? - Perguntou para o Tuquinha.

- Quero voar neste troço!

- Mas o gaúcho está no lugar errado. Para voar tem de ser por linha comercial. Tem de comprar passagem... Entrar na fila... Chegar uma hora e meia antes, mesmo que a viagem dure só alguns minutos...

- Já disse que quero voar. Tô dizendo que vai ser agora.

Mais por precaução do que por boa vontade, já que vira o cabo da adaga luzindo por cima da guaiaca, o homem resolveu transigir...

- E o pagamento?...

- Quanto é que vai custar?

- Cem contos está bom para o senhor? - Perguntou o piloto.

- Dá prá apontar?

- Como assim?... - Perguntou o homem sem entender direito.

- Apontar... Botar no caderno... Pagar outro dia...

- Não, nada disso. É dinheiro no poncho.

0 Tuquinha suspirou. Suspirou, mas pagou, porque queria mais do que tudo andar de aeroplano.

Queria tanto que pensava mais nisso do que na viúva na qual andava de olho. Talvez pensasse mais... Talvez não...

- Então sobe gaúcho. Sobe que tu vais voar.

E o Tuquinha não esperou segundo envite. Subiu e abancou-se ao lado do piloto, que foi fechando a carlinga e após autorização da torre, alçou vôo.

- Para onde vamos?

- Toca direto pro Basílio!

E voaram... 0 Tuquinha em êxtase.

- Olha lá o Cerrito!... Olha o Piratini!... Toca mais prá direita...

E o piloto, que era de bom coração, foi se afeiçoando pelo passageiro. Pela simplicidade quase infantil... Sobrevoaram o Basílio... A casa da viúva rendeu três passagens rasantes. A fazenda do deputado e amigo, outras tantas.

- Tá na hora de voltar meu amigo, o combustível tá pouco...

- Então vamos embora seu moço, porque se "falha" nos estrepamos.

A volta transcorreu com normalidade. 0 Tuquinha interessava-se agora pelos instrumentos, que por sinal, não eram muitos. Um amperímetro, um altímetro, marcador de combustível e o rádio VHF que aproximando-se da cidade grande voltou a crepitar.

Lá pelas tantas, nas cercanias do aeroporto, o homem da torre de controle fez as tradicionais perguntas:

- A identificação, a procedência, a altura e a rota?

E o piloto, por cortesia, estendeu o microfone ao Tuquinha, dizendo:

- Pode informar...

E o viajante, inebriado pela oportunidade, vociferou:

- Tuquinha... Tuquinha de Barros, natural do Basílio, um metro e oitenta e um... Ahrg!...

----- Original Message -----
From: "Luiz Morvan Grafulha Corrêa"
To: cohen
Sent: Wednesday, June 25, 2003 6:02 AM
Subject: Re: Um Presente da Página do Gaúcho

Caro Roberto Cohen:

Entrei na tua página um dia destes, meio por acauso, pois não a conhecia, em busca de algumas lendasdo sul, para pesquisa e de imediato, a incluí nas minhas favoritas. Acontece que, com poucas obras rodoviárias a executar, desandei a fazer uns apontamentos, que comecei, infelizmente tarde, para mim e talvez felizmente, para os leitores. Daí que saiu um livreco de minha autoria, no ano passado, que terei o maior prazer em enviart-te se me deres um enderêço para correspondência. São causos gauchescos, prefaciados pelo Luiz Fernando Lessa Freitas (parente do resto da indiada). Fora este, tenho mais um lote, engavetado, à espera de alguma alma buena, quie se disponha a estender uns cobres poucos muy necessários à impressão. Enquanto não aparece a dita alma, a fábrica vai funcionando e te enviarei alguns, por este tal de telex moderno, com os quais, se te forem do agrado, poderás fazer o que quiseres. Meru telefone é 3225-8185, para o causo de alguma charla ao vivo e a cores. Um abraço agradecido pelo Presente.

Aqui, à tua disposição, para serviços levianos, o guasca

Ah, já ia me olvidando de dizer-te, que toda quinta-feira, estou no Diário da Manhã, de Pelotas, com uma página quase inteira só para as minhas besteiras. Agora já disse.

Luiz Morvan Grafulha Corrêa (Tuquinha)