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Gaúcho que é gaúcho

Fonte
Texto de Luís Fernando Verissimo, gentileza de Sandro Timm

Gaúcho que é Gaúcho não usa camiseta sem manga a não ser para jogar basquete.

Gaúcho que é Gaúcho não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir.

Gaúcho que é Gaúcho não come suflê.

Gaúcho que é Gaúcho - de agora em diante chamado GQEG - não deixa a sua mulher mostrar a bunda pra ninguém. Nem em baile de carnaval. GQEG não mostra a sua bunda pra ninguém. Só no vestiário, para outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos dá briga.

GQEG só vai ao cinema ver filme do Franco Zefirelli quando a mulher insiste muito, e passa todo tempo tentando ver as horas no escuro. GQEG não gosta de musical, filme com a Jill Claybourgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy e que dos novos, tirando Schwartzneger, é tudo veado.

GQEG não vai mais a teatro porque também não gosta que mostrem a bunda à sua mulher. Se você quer ver um GQEG no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no ballet. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa mata.

Se você não sabe se tem um GQEG dentro de você, faça este teste. Leia esta série de situações. Estude-as, pense, e depois decida como você reagiria em cada situação. A resposta dirá o seu coeficiente de GQEG. Se pensar muito, nem precisa responder: você não é um GQEG. GQEG não pensa muito!

1

Você está num restaurante com nome francês. O cardápio é todo escrito em francês. Só o preço está em reais, muitos reais.

Você pergunta o que significa o nome de um determinado prato ao maitre. Você tem certeza que o maitre está se segurando para não rir da sua pronúncia. O maitre levará mais tempo para descrever o prato do que você para comê-lo, pois o que vem é uma pasta vagamente marinha em cima de uma torrada do tamanho aproximado de uma moeda de um real, embora custe mais de 50.

Você come de um golpe só, pensando no que os operários são obrigados a comer. Com inveja. Sua acompanhante pergunta qual é o gosto e você responde que não deu tempo para saber.

O prato principal vem trocado. Você tem certeza que pediu um "boeuf à quelque chose" e o que vem é uma fatia de pato sem qualquer acompanhamento. Só.

Bem que você tinha notado o nome: "Canard Melancolique". Você a princípio sente pena do pato pela sua solidão, mas muda de idéia quando tenta cortá-lo. Ele é um duro, pode agüentar. Quando vem a conta, você nota que cobraram pelo pato e pelo boeuf que não veio.

Você:


  1. paga assim mesmo para não dar à sua acompanhante a impressão de que se preocupa com coisas vulgares como dinheiro, ainda mais o brasileiro;
  2. chama, discretamente, o maitre e indica o erro, sorrindo para dar a entender que, "merde", "alors", estas coisas acontecem;
  3. vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho contra a parede e, segurando o gargalo, grita: "Eu quero o gerente e é melhor ele vir sozinho!"
2

Você foi convencido pela sua mulher, namorada ou amiga - se bem que GQEG não tem "amigas", quem tem "amigas" é veado - a entrar para um curso de Sensitivação Oriental.

Você reluta em vestir a malha preta, mas acaba sucumbindo. O curso é dado por um japonês, provavelmente veado.

Todos sentam num círculo em volta do japonês, na posição de lótus. Menos você que, está um pouco fora de forma, pode sentar na posição de arbusto despencado pelo vento.

Durante quinze minutos todos devem fechar os olhos, juntar a ponta dos dedos e fazer "Ron", até que se integrem na Grande Corrente Universal que vem do Tibet, passa pelas cidades sagradas da Índia e do Oriente Médio e, estranhamente, bem em cima do prédio do japonês, antes de voltar para o Oriente.

Uma vez atingido este estágio, todos devem virar para a pessoa ao seu lado e estudar seu rosto com as pontas dos dedos, não se surpreendendo se o japonês chegar por trás e puxar suas orelhas com força para lembrá-los da dualidade de todas as coisas.

Durante o "Ron" você faz força, mas não consegue se integrar na grande corrente universal, embora comece sentir uma sensação diferente que depois revela-se ser cãibra. Você:


  1. finge que atingiu a integração para não cortar a onda de ninguém;
  2. finge que não entendeu bem as instruções, engatinha, fazendo "Ron", até ao lado daquela grande loura, e na hora de tocar o seu rosto erra o alvo e agarra os seus seios, recusando-se a soltá-los mesmo que o japonês quase arranque suas orelhas; ou
  3. diz que não sentiu nada, que não vai seguir adiante com aquela bobagem, ainda mais de malha preta, e que é tudo coisa de veado.
3

Você está numa reunião social, daquelas que há lugares de sobra para sentar mas todo mundo senta no chão. Você não quis ser diferente, se atirou num almofadão colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa.

Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode.

O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu copo de vinho enquanto usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho.

Aí o cabeleireiro de cabelo mechado, ao seu lado oferece:

- Se quiser usar o meu..
- O seu...?
- Joelho.
- Ah...
- Ele está desocupado.
- Mas eu não o conheço.
- Eu apresento. Este é o meu joelho.
- Não. Eu digo, você...
- Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu tivesse oferecendo a perna toda você ia estar pedindo referências. Ti-au.

Você:


  1. resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças:
  2. leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária de civilização; ou
  3. pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.

ESCORE

Se você escolheu a resposta a, para todas as situações, não é um GQEG. Se escolheu a resposta b, não é um GQEG. E se escolheu a resposta c, também não é um GQEG. Um GQEG acha que teste é coisa de veado.

Profissão para um GQEG é motorista de caminhão. Daqueles que depois de comer um mocotó com duas Malzbier, dormem na estrada e, se sentem falta de mulher, ligam o motor e trepam com o radiador.

No futebol, GQEG é beque central, cabeça de área ou centroavante. Meio de campo é coisa de veado.

Mulher do amigo de Gaúcho que é Gaúcho é homem. GQEG não tem amizade colorida, que é a sacanagem por outros meios. GQEG não tem um relacionamento adulto, de confiança mútua, cada um respeitando a liberdade do outro, numa transa, assim, extra conjugal, mas assumida, entende? Que isso é papo de mulher pra dar pra todo mundo. GQEG acha que o movimento gay é coisa de veado.

GQEG nunca vai a vernissage.

GQEG diz que não tem preconceito, mas que se um dia estivesse na sala com todas as cantoras da música popular brasileira, não desencostaria da parede.

Coisas que você jamais encontrará no bolso de um GQEG: batom neutro para lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, o telefone do Gabeira, entradas para um espetáculo de mímica.

Coisas que você jamais deve dizer a um GQEG: "ton sur ton", "vamos ao ballet?", "prove estas cebolinhas".

Coisas que você jamais ouvirá um GQEG dizer: "assumir", "amei", "minha porção mulher", "acho que o bordeau fica melhor no sofá e a rafiá em cima do pufe".

GQEG acha que ainda há tempo de salvar o Brasil e já conseguiu a adesão de todos os Homens que são Homens que restam no país para uma campanha de regeneração do macho brasileiro.

Os quatro só não tem se reunido muito seguidamente porque pode parecer coisa de veado.