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Zeca do Padre I



Fonte
Livro "Rapa de tacho 1", de Apparicio Silva Riilo. Tchê Editora. Gentileza de Bernardete Angela Manosso.

Não há morador antigo de Vacaria que não tenha conhecido o "Zeca do Padre". Alto e magro, nariz adunco, olhos de gavião mirando pinto, sabia de todos e de tudo. Nunca por ele mesmo: "Me contaram - e se minto é por boca alheia - que..."

Tinha este apelido por haver sido, em jovem e por muito tempo, sineiro da matriz vacariana e íntimo do padre. Tão íntimo da gente de batina que acabou conseguindo um cartório, cujas funções assumiu pouco antes dos trinta anos. São várias as histórias que o têm como personagem.

Solteiro, morava numa casa de madeira que lhe servia de residência e cartório, ao mesmo tempo. Sua mesa ficava junto da janela, de onde, como de um mirante, acompanhava o movimento da vila que as fazia cidade. Isso por voltas de 1920.

Ao lado de sua casa, numa meia-água de quatro peças, morava uma castelhana " que recebia homens". Solita, como galinha em gaiola de engorde. Recebia seus amigos - na sua maioria fazendeiros abonados - depois que se fazia noite. Tinha até uma quase escala de visitantes: segunda-feira, fulano, terça, sicrano, e por aí se ia. Raramente tinha visitas à tarde.

Mas acontecia. O cliente vinha pela calçada, assobiando como quem não quer nada e, ao notar que não estava sendo observado, entrava rapidamente pelo portãozinho de ripas e ia bater na porta dos fundos. A senha era conhecida dos frequentadores: três batidas fortes, um espaço e nova batida. Abriam-se a porta e os braços da castelhana. A Zeca do Padre não escapavam esses lances. Chegava ao cúmulo de anotar nome do incauto, dia e hora da visita.

Certa tarde um moço bem apessoado - forasteiro, notou Zeca do Padre, gente de outras bandas - chegou à casa da castelhana sem qualquer preocupação. O escrivão notara que, meia hora antes, um cliente já conhecido se insinuara como um gato pela lateral da casa. A castelhana, por conseguinte, deveria estar ocupada quando o forasteiro bateu à porta da frente. Uma, duas vezes e nada.

Zeca do Padre chegou à janela. Como quem deseja apenas auxiliar, perguntou ao moço:

- É, acho que não. Ninguém responde.
- Boa tarde, moço. Não tem ninguém em casa?
- Pois se não respondem é porque tem...