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Um, dois, três



Fonte
Livro "Rapa de tacho 1", de Apparicio Silva Riilo. Tchê Editora. Gentileza de Bernardete Angela Manosso.

Dentre outros causos de mesma fonte, este me foi contado pelo Elton Benício Escobar Saldanha, conhecido compositor nativista do Estado, cria do Itaqui. Rose Escobar - um seu parente -, a despeito do nome, de que não gostava, era homem de se medir a palmo largo. Morava no rincão da Pata, na estrada do Silvestre, antes da barca do rio Ibicuí.

Havendo contratado casamento com uma mocita da cidade, visitava-a com alguma regularidade. Os noivos, entretanto, não chegaram a conhecer-se mais de perto. Sempre, na sala, a mãe da noiva e dois irmãos menores. Pelas nove da noite a velha servia um cafezinho, quente como la gran puta, senha para o noivo retirar-se. Rose saía dali pro chinaredo.

Casaram-se. Houve uma bonita festa, reuniu-se a parentada, pela primeira vez o Rose conseguia, pelo menos, segurar a mão da noiva. Após o almoço os noivos retiraram-se para a lua-de-mel, viajando num carro coberto puxado por um cavalo de boa estampa. A primeira noite - como as demais que viriam - seria passada no rancho novo que o Rose mandara construir no rincão da Pata.

Ao cruzar o carro pelo quartel soou um clarim. O cavalo assustou-se, o carro bamboleou, Rose arrancou o revólver da cintura, deu um tiro para cima e murmurou: - Um...

Mais adiante, na passagem dos trilhos, quando as rodas barulharam sobre os ferros, mais um susto do cavalo, uma sacudida forte do carro. Rose puxou uma vez o revólver. Deu um tiro rente às orelhas do animal e resmungou: - Dois...

Nesta altura a noiva já se encolhera num dos cantos do banco. O noivo não lhe dera uma palavra, até então. Só quebrara o silêncio com os dois tiros e com os resmungos de um... dois...

Já se avistava o rancho novo. Ao cruzar o carro por uma taipa de açúde que lhe ficava próximo, um bando de gansos atravessou-se por entre as patas do cavalo. Este, alarmado, empinou-se , quase que rebenta as tiradeiras, Rose dominou-o com algum esforço.

Fez a noiva baixar do carro, tirou o revólver do coldre, a moça escutou ele dizer: Três! e, imediatamente, um estampido. Atingido no pé do ouvido o cavalo ficou pataleando. A moça, entre o desespero e a irritação, chamou o Rose de bruto, bandido, onde se viu matar um pobre animal por tão pouca coisa, bem que ela não o conhecia, jamais imaginara que...

Rose escutou em silêncio. Quando a noiva acabou de desabafar, sacou do revólver e resmungou: - Um...

A moça arregalou os olhos. E como para bom entendedor meia palavra basta, saiu na sombra do marido no rumo do rancho novo.