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Leonel Colvero



Fonte
Livro "Balaio de causos", de Leonel Colvero.

Meu Tio Campeiro

Quando eu era guri, durante as férias escolares, o meu pai me levava passar uns dias na casa do tio Daniel Toniolo, lá na Santa Flora, distrito de Santa Maria que se estende até as divisas de São Sepé e São Gabriel.

Por ter um bolichão bem sortido, bem no centro do distrito, era ponto de encontro de todos que vinham comprar, vender, pegar ônibus pra cidade, ver se tinha carta e ter um "dedo de prosa" com o "seu" Daniel.

Além de ser bolicheiro, tio Daniel tinha campos com criação de gado, lavouras de milho para a criação e para venda do que sobrasse.

Por causa disso aprendi a atirar bem e matar caturritas esfomeadas que depois enriqueciam o arroz da tia Celinha.

Mas o que eu admirava mesmo no tio Daniel, era a sua qualidade de campeiro e a paciência que tinha para ensinar o que sabia para a gente.

Sempre alegre e rindo, nos "botava na verga".

Teria histórias alegres de pescarias, de caçada de ratão do banhado e lagartos para contar. Lembro-me como se fosse hoje da primeira chamada à atenção que o tio me deu.

Estávamos caminhando pelo campo da frente, para ver uma rês machucada que ficara lá no mato com perigo de "abichar" e eu, pequeno, naturalmente fiquei para trás na caminhada, quando o tio-campeiro se virou para mim e disse:

- Anda, guri! Quem vai atrás um do outro é gringo indo p'ra roça, enfileirado naquela carreirinha da picada do mato que continua no limpo, porquejá se acostumou a andar assim desde pequeno. Emparelha com a gente, que gaúcho anda lado a lado "como uma carga de cavalaria".

Nunca mais me esqueci disso e espero quem vai comigo na caminhada, para andarmos lado a lado.

Outra do Tio Orbano

Lá no Rincão do Rodeio Bonito, onde morava com a mulher e uma porção de filhas, todos conheciam a fama de conquistador do tio ORBANO.

O assunto preferido era mulher, e ele não dava folga mesmo. Tem até o causo da vizinha nova que apareceu por lá, alegre e "despachada", balançando as estruturas do tio ORBANO.

Pois essa vizinha "deu bola" e o tio ORBANO se escalou logo. Tirava a vizinha pra dançar no início dos bailes e não largava mais. Vivia "arrastando a asa" para o lado dela.

A tia Otália não gostava "daquilo tudo" e ficava "no pé" do tio ORBANO. Bastava ele sair no dia seguinte ao baile, e ela seguia o rastro dele.

Numa dessas ocasiões, o tio ORBANO tinha marcado um encontro com a "Seresteira da lua", como chamava a vizinha "fogueteira". Foi debaixo de uma moita grande de unha de gato, daquelas que dá para ficar lá dentro, protegido por 5 metros de galharada de espinhos em volta.

Na hora em que estava preparando o ninho, pouco antes de ela chegar, chegou a tia Otália com um porrete meio escondido e já foi perguntando:

- Ué, ORBANO, o que é que tu estás fazendo aí, agachado desse jeito, homem?

- Tô cagando, muié. Não tá vendo?

A tia Otália saiu atrás dele, de porrete na mão, se arranhando toda nas unhas de gato e gritando:

- Cagando, é... ORBANO? ... Sem tirar a roupa, ORBANO?

- Então mostra a bosta, homem!

E é por isso que quando alguém diz alguma coisa em que eles não acreditam, os "guris" do Conjunto OS QUATRO VENTOS sempre falam em coro:

- Então mostra a bosta, homem!

A Entrevista

A Tertúlia Nativista estava sendo realizada no Ginásio do Centro Desportivo Municipal de Santa Maria, e durante o intervalo os artistas andavam livremente, misturando-se aos espectadores, junto ao saguão de entrada, onde foi montado um bar.

O compositor Osmar Carvalho aguardava o resultado dos jurados, observando o movimento do pessoal.

O cantor Eracy Rocha pediu emprestado o microfone e o fone de um repórter de rádio, que não estavam ligados em cabo nenhum.

Segurou na mão direita o fio do fone junto com o microfone, criando a ilusão ótica de que estaria ligado o equipamento. Acercou-se do Osmar e falou:

- Eu tenho aqui comigo o Osmar Carvalho...

Fez uma pausa, como se estivesse ouvindo o outro lado da "transmissão" e falou de novo:

- Tudo Bem! Eu aguardo a minha vez.

Antes que o Osmar pudesse combinar qualquer coisa "em off" o Eracy atacou:

- Pois amigos, estamos ouvindo agora o grande compositor nativista Osmar Carvalho, de tantas e tão brilhantes participações nos nossos festivais, que vai nos falar de suas impressões sobre a Tertúlia...

O Osmar começou a procurar as palavras certas para se expressar, bastante nervoso com a carga emotiva que o Eracy lhe causou, enquanto o repórter lhe fazia "micagens" e o cutucava querendo pressa na resposta.

Terminada a resposta da introdução, o Eracy veio "cortando fundo":

- Vamos ver se agora o Osmar dá uma resposta que preste e não fique só "enrolando" a gente: - Quais são as chances da tua música?

Coitado do Osmar, ficou sem ação. Gaguejando, disse qualquer coisa, mas foi de novo interrompido pelo repórter que se divertia em confundir o entrevistado:

- Pô, negão, tá querendo me derrubar? Agora que eu estava quase arranjando um contrato na rádio tu me dá umas respostas de merda destas?!

Foi o momento em que o Osmar Carvalho constatou que a entrevista era fria. A única coisa que conseguiu fazer foi falar:

- FIA DA PUTA!!!

Nico Fagundes e a Genealogia

Faltavam alguns minutos para começar mais uma noitada da TERTÚLlA NATIVISTA no Cine Independência, em Santa Maria.

No saguão de entrada, antes de começar o espetáculo da noite, formavam-se rodinhas de amigos que se saudavam mutuamente e trocavam impressões sobre a festa, matando a saudade.

Num desses grupos, estava eu com alguns amigos , quando acercou-se o ANTÔNIO AUGUSTO FAGUNDES, a quem, carinhosamente, gostamos de tratar por NICO.

Disfarçando, chamou-me de lado, para que o Juarez Chagas, líder do grupo Terra Viva, de Santo Ângelo, não percebesse "a armação " e me falou:

- Gordo, diz que eu entendo tudo de genealogia e me pergunta sobre a árvore genealógica do "Negrão"...

Eu, prontamente, como cobra-mandada, fui logo apartando os companheiros e introduzindo o Nico:

- Vejam quem apareceu! NICO, vem cá! Me disseram que tu fizeste uma grande pesquisa, e que hoje em dia és a maior autoridade na identificação dos troncos das famílias que formam o povo da nossa terra. Pois quero ver:

- Fala da árvore genealógica dos Chagas!

Antes que o Nico começasse a falar, pelo jeito que encheu o peito, como sapo que se lhe coçassem a barriga, já ouvi o (na época) Major Chagas dizer baixinho:

. - Aí vem mecha...

- Pois meus amigos - começou o Nico -, é muito boa esta oportunidade para restabelecer a verdade da história.

. - Os Chagas... (fez uma pausa que realçou ainda mais o silêncio e a atenção total da platéia)... eram uma "negrada" que veio da África no porão de um navio...

- Em meio a uma gargalhada geral, depois de os amigos abraçarem o Nico, juro que escutei um cochicho do Juarez no ouvido da autoridade em genealogia, enquanto se abraçavam fraternalmente:

- SEU FIA DA PUTA!...