Você está aqui

Como chibiar gayetas

Fonte
Autoria de Mauro Rochenbach, gentileza de Cynara Ramos Martins

Na década de 60, entre tantas mercadorias, uma das iguarias mais contrabandeadas da Argentina para o Brasil, na fronteira do Rio Grande do Sul com a província de Missiones, tendo por divisor o Rio Uruguai, eram as famosas Gayetas.

As Gayetas, bolachas recheadas com doce de leite tinham mercado garantido nas cidades da região missioneira do Rio Grande do Sul (comi alguma gayeta de lanche na hora o recreio).

Como o "chibo" (contrabando) se tornara enorme, as autoridades de fronteira intensificaram o controle. Do lado brasileiro, os fuzileiros navais (os temíveis botas marrom) triplicaram a guarda da fronteira e do lado argentino, os soldados da não menos temível "Gendarmeiria Nacional" quintuplicaram a segurança.

Em poucos dias, "rareou o chibo". Barco atravessando o rio, depois das seis da tarde, levava chumbo com toda a certeza. Milhares de sacos de Gayeta foram cair na água em Porto Mauá e apareceram boiando lá no Passo, em São Borja. Os chibeiros estavam apavorados, pois sem o "trabalho aquático de repontar mercadorias", como poderiam viver?

Estavam tomando mate na casa do Faustino, este, chibeiro velho lá do Porto de Vera Cruz e vários viventes ligados ao ofício, quando chegou o Joãozinho Rigoletto correndo, com a boca nas orelhas de alegria, pois tinha, após passar a noite em claro pensando, encontrado a grande solução.

- Indiada. Já tá resolvida a questã.

Todos olharam para o rigoletto, sem entenderem até que Faustino falou:

- Que questã vivente?
- A questã do chibo! Passei a noite estudando o "problema" e não foi devalde.
"Concrusão": se não é pela flor da água, vai sê pelos "aires"!

A risada foi geral, seguida dos mais diversos comentários:

- Vai comprá um avião, Joãozinho? Perguntou um.
- Vai cruza Gayeta com Quero-quero prá elas ficá com azinha? Perguntou outro.

O Rigoletto ficou quieto; um pequeno riso, aguardando o fim dos comentários.
Quando a balbúrdia terminou, o Faustino comentou severamente:

- Me admira muito tu, Rigoletto, que tá no mesmo poblema vir aqui prá falá bobage.
- Tâmo ferrado, as barranca qualiada de brigadiano, já sem cobre prá comprá bóia pras criança e as muié e tu com todo tempo prá pensá nestes tipo de causo?
- Calma povo, calma.
- Vocês não esperam prá eu contá minha idéia, é buena barbaridade...
- Também, tô ferrado e por isso me atraquei a pensá numa saída prá nóis tudo.

Vendo que não tratava-se de piada, os chibeiros pararam para escutar.

- Bueno. A idéia é "munto" mais simples que parece: se nóis temo fudido, a castelhanada que vende prá nóis também tá. Conhecendo bem os paissano, tenho certeza que vão se entreverá com nóis na empreitada.

- Pegô o Ramon, o correntino, não o manco, e fechô com ele o negócio que "conseste" do seguinte:

- Montamo do lado castijo um florão de bodoque feito com um "furquião" de açoita cavalo dos crescido. De cada lado, ponhamo uma câmara inteira de pneu de jipe e uma badana de couro no fundo de por as pedra.

- Bueno, um lado tá pronto.
- Do nosso lado, emendamo todas as rede de pesca que nóis junta.

- Ponhamo elas levantada, na grimpa das arve na nossa barranca e de noite a indiada do Ramon se atracaa atirá pacote de gayeta por riba do rio e nóis só vamo tirando eles de dentro das rede.

Quando terminou de expôr su estratégia, só teve tempo de pegar a boina missioneira que tinha tirado da cabeça e sair correndo com todo o bando de chibeiros de atrás. Corria tentando acalmar a xiruzada, dizendo:

- Calma... calma, as câmara de jipe eu já arrumei na oficina do Valdir e se o rio é largo, os casteiano são forte.