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Populário São-Borjense



Fonte
Livro "Populário São-borjense", de Apparicio Silva Rillo e Fernando M. O'Donnell. Martins Livreiro Editor. 1991.

Ovelha não é pra mato

0 preparo da invasão de Santo Tomé não era segredo em São Borja. Além do pessoal do 14, que deveria cruzar o Uruguai à gaúcha por despiste, o Coronel Beijo andava a aliciar mais gente com promessas de recompensa. Conhecedor das situações individuais, sabia "chegar" em cada um conforme as necessidades. Com tal fim, abordou o comerciante J.A.:

— Escuta, Zequinha, sei que teu negócio não desenvolve. Por isso te proponho que tomes parte na invasão. Tu vais na segunda leva, só para fazer número, que isso impressiona e os castelhanos vão pagar por cabeça. Vai e te forra de mercadoria, que vão dar saque livre.

Zequinha pôs-se em brios. Miudinho e trêmulo, lá estava ele naquele fatídico 29 de dezembro de 1933. Cruzou o rio pensando na "venda" sortida. Porém, ao pôr pé em terra, sentiu que algo se atravessava em seus planos — a resistência dos gendarmes era maior que a esperada. Corria bala a torto e a direito! Um graduado da policia correntina varria a praça de Santo Tomé, encarapitado num telhado. Por pura "gala criolla" até tirava um trecho do "Zé Pereira" na metralhadora!

E agora?!

Zequinha se benzeu para agarrar coragem. Tirando partido de seu tamanho de pouca sombra, esgueirou-se no meio do tiroteio, chegou até a um bolichão e entrou. Atingira seu primeiro objetivo, mas as prateleiras estavam vazias! Só restara, no alto de uma delas, um belo e solitário par de botas... Num pulo, deu de mão, pô-las embaixo do braço e saiu rastejando por vielas desertas, até se por a salvo. Saltando para dentro da balsa, praguejou, fazendo figa para o chão estrangeiro:

— Não volto rico, seus bostas, mas este troféu vai provar a minha coragem!

No meio da noite, bateu em casa. Desvencilhou-se dos trajes guerreiros e acessórios de briga (um Nagant que engasgara com o medo do dono, uma língua-de-ximango com cabo de espiga e um bocozinho com vinte cartuchos), e foi provar as botas na frente da família. Caiu de queixo: havia trazido duas botas para o mesmo pé!...

Num crescendo

0 lançamento da candidatura do Dr. Getúlio a Presidente, em 50, deu-se numa enorme churrascada, na Granja do Dr. Jango, à qual compareceram delegações de todo o Brasil. A festa, como não podia deixar de ser, obedeceu a um cronograma espontâneo, desses que começavam com os discursos dos graúdos, os "pronunciamentos" dos intrometidos e a cantoria dos trovadores, regados à universal fartura. Do meio para o fim da tarde, quando só resistiam os mamaus recalcitrantes, ficavam os clássicos grupinhos. Assim foi. Num desses grupinhos, o F. e o R. S. tentavam fazer bonito, tendo por mote a quadrinha com a qual um dos trovadores mais afamados havia descrito a despedida das tropas na Revolução de 30, quando saíram da gare dos Navegantes:

"Chora o rico, chora o pobre,
chora o mais necessitado,
chora o Dr. Getúlio Vargas,
presidente deste Estado."

Com aquele choro queimando no peito, o F. atacou:
"De brinquedo chora o mico,
por nada chora o louco,
por muito chora o rico,
o pobre chora por pouco."

O R. S. saiu no rastro:
"De alegria o coió,
de medo quem se encadeia,
mas a véia tua vó
chora de véia ou de feia?"

E o F., perdendo as estribeiras:
"Por ela chora o urutau
e por ti o urubu,
tua mãe chora por pau
e tua irmã dando o c...".

A compensação

Ao rebentar a Revolução de 30, apesar do entusiasmo popular generalizado, algumas guarnições do Exército não aderiram. Entre estas, estavam as de São Borja e Itaqui. Para pôr em xeque a posição do 29 RCI, foi preciso vir uma coluna de Santiago, sede da Brigada de Cavalaria à qual estava subordinado o 29. Como lá as coisas correram melhor que a encomenda, pôde-se despachar um forte contingente, do qual faziam parte os cavalarianos libertadores do conhecido Coronel Mário Garcia.

No decurso do dia 6 de outubro, enquanto o Regimento se retirava tiroteando no rumo do rio Uruguai e os revolucionários são-borjenses podiam sustentar o fogo sozinhos, resolveu o Coronel Pires Coelho, chefe militar das operações, que a cavalaria de Mário Garcia aguardasse na reserva, com montarias pela rédea, postando-se ao longo da rua Aparício Mariense.

O tiroteio na Várzea e a posterior passagem pelo rio com o internamento do 2o levaram todo o dia. E todo o dia ficou a gauchada de Santiago, a postos, sob um sol amarelo e cáustico. Como se poderia prever, os homens tiveram de se socorrer nas casas daquela rua, buscando água e comida para si e seus cava-los, pedindo licença para uma chegadinha na latrina, etc.

Lá pelo fim da tarde, um grande trecho da rua, da frente da Intendência até mais ou menos onde se situa hoje um posto de gasolina, transformara-se num improvisado e sujo acampa-mento. Foi quando chegou a notícia de que a Revolução estava consolidada em São Borja. Com isso, a coluna santiaguense recebeu ordem de retorno imediato. O impetuoso Mário Garcia, visivelmente contrariado, não pensou duas vezes. Mandou montar com este discurso:

— Bueno, companheirada, bamo s`imbora! Fiquemo aqui plantados, sem pelear... Mas não há de ser nada! Pelo menos bostiemo bem a rua "deles"!...