Edição 2001


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Zero Hora Especial
extraído do Caderno de Cultura, 31/03/2001
matéria de Renato Mendonça

A Califórnia luta para sobreviver

Acostumado com os períodos de crise desde o começo, o festival de Uruguaiana tenta manter o prestígio conquistado em 30 anos

Fosse para a 30a edição da Califórnia da Canção Nativa ter uma trilha sonora, a escolha mais acertada seria um dos maiores sucessos do festival, Não Podemo se Entregá pros Home (Zanatta, Francisco Alves e Francisco Scherer), hino de resistência entoado por Leopoldo Rassier em 1982, mas ainda hoje válido para o maior e mais antigo festival nativista do Rio Grande do sul.

A Califórnia luta para se manter viva. Este ano, o ingresso é gratuito e o palco será montado ao ar livre, no Parque Dom Pedro II , no centro de Uruguaiana, tentando recuperar a mística da Cidade de Lona dos anos 80. Como acontece desde 1997, foram aceitas inscrições de músicas que já participaram de outros festivais, mas o tamanho da crise acabou forçando a Califórnia a quebrar uma de suas tradições mais caras: a data de realização foi adiada de dezembro para janeiro e de janeiro para o final de março (a 30' Califórnia começou na quinta-feira e termina neste domingo).

Que fique claro que a indiada da Califórnia nunca fugiu da briga. O próprio surgimento do festival, em 1971, se deveu à desclassificação da música Abichornado de um evento patrocinado pela rádio São Miguel, de Uruguaiana, com a explicação de que era um festival de música brasileira, não de "música de grosso". Colmar Duarte, líder do grupo Marupiaras e autor de Abichornado, resolveu engrossar e, do rolo, surgiu a Califórnia. Na primeira noite do festival, em 8 de dezembro de 1971, pouco mais de cem dos 1,3 mil lugares do Cine Pampa estavam ocupados, mas, na segunda edição, nomes como Lupicinio Rodrigues, Paulo Ruschel, Luiz Menezes e as revelações Lúcia Helena, Plauto Cruz, Leopoldo Rassier e os Muuripás já estavam no palco. Foi quando ocorreu um dos primeiros causos do festival: Lupi tentou "esquentar" a apresentação de sua música cantando um pout-pourri de seus sucessos. Sem sucesso.

Na terceira Califórnia, o argentino Martin Coplas deu largada ao intercâmbio com o Prata e convidou alguns artistas argentinos para se apresentar na Califórnia, já instalada na Cidade de Lona - mistura de gauchismo, tertúlias, churrasco, canha e barracas - que se instalava no Parque da Associação Rural de Uruguaiana. A Califórnia de 1974 teve um convidado inesperado: agentes da comunidade de informação freqüentaram a Cidade de Lona por conta da música Canção dos Arrozais, de José Hilário Retamozzo, e seus versos "Quando evapora o suor do peão" e "Maduras hastes querem lâminas afiadas".

No palco, começava o duelo entre, digamos, conservadores e progressistas. Alguns concorrentes já se valiam da fórmula festivaleira de dividir suas músicas numa parte lenta e outra arrasta-peão, enquanto Ivaldo Roque, Jerônimo Jardim e seu Pentagrama apresentavam Coto de Vela e suas dissonâncias diante de um Cine Pampa surpreso. A surpresa acabou forçando a divisão da Califórnia em três linhas - campeira, manifestação rio-grandense e projeção folclórica - a partir de 1975. Neste mesmo ano, uma apresentação no Gigantinho com as vencedoras da Califórnia arrebanhou mais de l0 mil pessoas.

A Califórnia se transformou numa máquina de criar sucessos, como Negro da Gaita (Gilberto Carvalho e Airton Pimentel), com Cesar Passarinho, Esquilador, de e com Telmo de Lima Freitas, e Semeadura, de Fogaça e Vitor Ramil (o disco da 10' Califómia vendeu 50 mil cópias!). Também na 10' edição, o cantor Teixeirinha experimentou a desclassificação de sua música Última Tropeada porque ela conteria a expressão não-gaúcha "berrante".

O conflito entre o que seria a "boa" música gaúcha parecia encerrado em 1981, quando Desgarrados (Mário Barbará e Sérgia Napp) foi a primeira representante de projeção folclórica a vencer a Calhandra de Ouro. Era como se a organização da Califórnia tivesse entendido o que o payador Atahualpa Yupanqui, talvez a maior estrela a se apresentar na Califórnia, ensinara:

- O artista deve estar um passo a frente de seu povo, só um passo, para que possam segui-lo.

Em 1985, público e comissão organizadora pareciam estar bem atrás dos artistas. A música Astro Haragano, de e com Jerônimo Jardim, recebeu a Calhandra de Ouro sob vaia e chuva de latinhas de cerveja. Por outro lado, o regulamento do festival daquele ano (e que ainda está em vigor) definia que "A língua de expressão da letra é o português, respeitado sintática e foneticamente". A restrição foi entendida por muitos como um "banimento" do sotaque castelhano, talvez motivado pela vitória, na edição anterior, de O Grito dos Livres, na voz do argentino Dante Ramon Ledesma.

No ano da 15' Califórnia, uma retrospectiva lotou o Gigantinho, em Porto Alegre, enquanto mais de 40 mil pessoas estiveram na Cidade de Lona. Todo esse sucesso, porém, não baixou o fogo da discussão estética sobre o que era "ser gaúcho". O folclorista Barbosa Lessa, por exemplo, chegou a declarar:

- A Califórnia começou apenas "campeira", depois nós abrimos a porta, e eles agora querem derrubar as paredes.

Em meados dos anos 80, a Califórnia da Canção Nativa, apelidada por Jerônimo Jardim de "a mãe de todos os festivais", começa a ser ferida pelos seus próprios filhos. O sucesso da fórmula é copiado em mais de 60 festivais por ano no Rio Grande do Sul, os artistas peleiam para colocar suas másicas nessa orgia de certames e acabam por rebaixar a qualidade das composições. A milonga ganha a frente de todos os ritmos, e alguns intérpretes se "especializam" em festivais viram figurinhas carimbadas. Progressivamente, o público foi sumindo, enquanto a crise econômica fazia sumir os patrocinadores.

A Califórnia, que em 1987 foi transmitida pela TV para todo país, começou a encarar o fantasma dos lugares vazios na platéia. Mas não está morta, peleia. Na página ao lado, alguns dos protagonistas do grande espetáculo que é a Califórnia tentam ajudar a descobrir uma saída.





O Maior dos festivais, apesar dos problemas


Mário Barbará, compositor, vencedor de duas Calhandras de Ouro:

O objetivo da Califórnia era criar uma nova música gaúcha, dei minha colaboração com Desgarrados (parceria com Sérgio Napp) e Colorada (com Apparício Silva Rülo), mas isso acabou sendo abortado em algum momento. Acho que foi quando a música galponeira tomou conta de vez, fazendo o pessoal urbano se desinteressar. O próprio sucesso da Califórnia fez com ela crescesse demais e motivasse a criação de vários outros festivais, que se tornaram concorrentes de Uruguaiana. Acho que também o excesso de milongas desinteressou o público. E também creio que realizar a Califórnia ao ar livre possa ter prejudicado. Quando era no cinema Pampa, as pessoas ficavam em silêncio, prestando atenção e torcendo, ao ar livre o público fica disperso. Se fosse a Elba Ramalho seria uma maravilha, mas, para uma competição de músicas nativas, não funciona.



Victor Hugo, cantor; radialista, quatro vezes escolhido o melhor intérprete na Califórnia:

Victor Hugo A Califórnia tem a marca da crise, mas também representa a superação da crise. Foi em Uruguaiana que se introduziu a bateria e o teclado eletrônico na música nativista. Desgarrados venceu o festival provando que se poderia fazer uma sonoridade mais aberta. Acabou acontecendo uma reação a isso, houve quem acreditásse que apenas o que era campeíro era bom. No final, a história mostrou que a discussão estética que opunha a gaita ao teclado eletrônico estava superada, não é o tipo de instrumento que toma uma composição mais ou menos nativa. O gigantismo dos festivais na segunda metade dos anos 80 (havia mais de 60 disputas por ano) trouxe uma crise de conteúdo. Hoje, há nuúto menos festivais mas a crise é de formato - os festivais têm de ser tratados como espetáculos que atraiam o público, não podem ter finais nas noites de domingo, por exemplo.


Pedrinho Figueiredo, músico e produtor carioca, escolhido melhor instrumentista por duas vezes pelo júri da Califórnia.

Cheguei ao Rio Grande do Sul em janeiro de 1982 e, em dezembro, já estava no palco da Califórnia ajudando Pery Souza a defender Estrela Guna. Como não tive a vivência de raiz gaúcha, para mim era muito natural me apropriar de um tema folclórico e torná-lo contemporâneo. E acho que não há problema nenhum nisso. Em dezembro do ano passado, fiz um arranjo para um poutpourri de músicas missioneiras, que a Ospa executou em São Miguel das Missões, e o resultado foi excelente. Acho que a menor repercussão e o menor público que a Califórnia tem conseguido nos últimos anos se deve em parte à imprensa. Na década de 70 e 8O, todas as rádios e TVs estavam em Uruguaiana, e se começava a falar do festival um mês antes.


Paixão Côrtes, folclorista, presidente da OMB no Rio Grande do Sul quando a Califórnia foi criada.

Paixão CôrtesConfesso que não tenho acompanhado de perto a Califórnia nos últimos anos, mas ainda me insurjo contra a ditadura da milonga. Acho que existem vários outros gêneros gaúchos que não estão sendo aproveitados. Temos a chimarrita, a tirana, o balaio, ritmos que podem ser puxados pela gaita como a polquinha, o serrote, o gasta-sola, o limpa-banco. A gaita é que dá a característica do folclore gaúcho. E, mais: há mais de 50 linhas melódicas de milongas, e os compositores se restringem a duas ou três, limitando a riqueza musical e harmônica do folclore gaúcho. Não quero me tirar por "santidade" em folclore, mas acho que temos de ser "radicais" no sentido de procurarmos as raízes, todas as raízes.



Jerônimo Jardim, cantor e compositor, vencedor da Calhandra de Ouro em 1985 com Astro Haragano.

Jerônimo JardimApesar dos problemas que tive (na premiação de Astro Haragano, parte do público vaiou e jogou latas no palco), digo que a Califórnia é o festival nativista mais importante, é a mãe de todos os outros, um palco para as coisas novas. Foi por isso que, já em 1973, eu e o Ivaldo Roque levamos o Pentagrama para Uruguaiana e concorremos com Cobra Luz, que inovava ao introduzir dissonâncias e letra que fugia dos estereótipos fronteiriços. No ano seguinte, voltamos com Coto de Vela, mais dissonâncias e uma influência clara dos negros litorâneos gaúchos na percussão. O problema todo, em 1985, foi que era um aniversário importante da Califórnia, e acho que parte do público me considerava símbolo de algo que podia ser perigoso. De qualquer modo, a Califórnia avivar o regionalismo conseguiu. Queria aumentar a produção de músicas nativistas - conseguiu. Queria renovar os artistas regionais - conseguiu.



José Cláudio Machado, compositor e cantor, vencedor da Calhandra de Ouro em 1972, com Pedro Guará.

José Cláudio MachadoNão acredito que a Califórnia seja rígida em termos musicais. A decisão de premiar três garante que seja um festival aberto. O problema da diminuição de público na Califórnia tem várias razões. Uma delas é que o povo está mesmo sem dinheiro. Outra é o critério que as comissões julgadoras usam para fazer a seleção. E a redução no valor das ajudas de custo e dos prêmios acaba afastando os músicos, que resolvem guardar suas melhores composições para outros festivais que oferecem melhores condições. E, depois, nestes últimos 30 anos, acabou surgindo uma parcela de músicos que se especializaram, se tornaram profissionais de festivais. Essa repetição de intérpretes acaba afugentando o público que não quer ver sempre as mesmas caras.