Capítulo 0
Introdução

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O Vaqueano - Matéria e Invenção - Ensaios de Literatura
Flávio Loureiro Chaves - Editora da Universidade Ufrgs

"Em 1870, José de Alencar lançou o gaúcho com grande repercussão nacional. Apenas dois anos depois Apolinário Porto-Alegre, inspirado no modelo, publicou O Vaqueano; mas acrescentou-lhe a observação direta do meio, que faltava por completo ao escritor cearense. Ele é, portanto, o legítimo fundador do regionalismo literário sul-rio-grandense, qe nesse momento deixa de ser mero sentimento coletivo e se traduz como um programa de ação.

Apolinário representou em grau superlativo a geração liberal e abolicionista, congregada na Sociedade Partenon Literário, cujo ideário incluía em primeiro plano o romantismo nacionalista e a valorização da cor local. Pode-se afirmar que toda a vida cultural gravitou, neste período, em torno deste notável educador e da obra múltipla que produziu, abrangendo a ficção, a poesia, o ensaio e a investigação folclórica.

A figura do vaqueano já se fizera indispensável ao contexto social do pampa: funcionava como guia de viajantes e forasteiros por conhecer os caminhos e atalhos, possuidor de habilidade e destreza, ignorante do perigo. Apolinário projetou-o na personagem imaginária de Avençal, condutor do exército farroupilha pelas trilhas da Grande Revolução. O seu mundo, caudatário do gosto romântico, agita-se nos rasgos heróicos dos protagonistas, nas grandes paixões que determinam o desfecho trágico da narrativa. Por isso, frequentemente exagera na deformação do real e perde em veracidade.

Não obstante, o regionalismo gaúcho tudo deve a Apolinário Porto Alegre. Seu romance legou um tema e inaugurou uma tradição. A personagem do vaqueano sintetiza todos os atributos do guasca; retornará na obra da maioria dos ficcionistas posteriores e sua descendência literária culmina na Blau Nunes dos Contos Gauchescos de Simões Lopes Neto."