Capítulo 0
Introdução

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Recordações Gaúchas - Matéria e Invenção - Ensaios de Literatura
Flávio Loureiro Chaves - Editora da Universidade Ufrgs

"Luis Araújo Filho assinava simplesmente - Laf; e sob este nome publicou as Recordações Gaúchas em 1905. Parece que poucos o leram e menor ainda é o número dos que chegaram a citá-lo depois. Seu pequeno livro - afastando-se da tendência literária da época - permaneceu isolado entre as narrativas românticas e a retórica grandiloqüente dos parnasianos. Ele próprio não alimentou pretensões exageradas e, na dedicatória, oferece singelamente "este folhetim aos meus patrícios campeiros".

No entanto, ofereceu o melhor exemplar da expressão naturalista em toda a literatura gaúcha. Compõe uma fotografia exata da paisagem, anota objetivamente os fatos históricos, registra o linguajar e os hábitos dos tropeiros, transcreve o folclore. É porventura o primeiro a fazê-lo sem a intenção prévia de recobrir a realidade com artifícios ornamentais. Justamente por esta razão sua obra significa um sopro renovador dentro do regionalismo, até então amarrado aos padrões heróicos legados pelos escritores do século 19.

Aqui o relato adquire as dimensões duma reportagem sincera, tudo detalhando com descrições minuciosas, embora as personagens sejam fictícias, e revela ao leitor um panorama bastante nítido do "meio social tosco mas positivo", tal como Laf entendia o espaço cultural do pampa.

O mundo regionalista que surge das Recordações Gaúchas foi mantido nos limites da verossimilhança, porque o realismo de Laf recusa qualquer idealização épica puramente imaginária. A vida rude dos campeiros e a observação rigorosa são a sua matéria suficiente."