extraído do jornal Zero Hora
Segundo Caderno
14 de novembro de 2000
Redação de Dirceu Alves Jr.
Fotos de Adriana Franciosi/ZH



extraído do jornal Zero Hora de 14/11/2000,
Segundo Caderno



Barbosa Lessa, cidadão da Praça

Patrono da 46a Feira do Livro da Capital
aproveita o evento para rever amigos e revela
que não comprou nenhum livro



DIRCEU ALVES JR.

Não pergunte para Barbosa Lessa qual é o melhor roteiro a ser percorrido na 46a Feira do Livro. O patrono ficará pensativo e responderá que não existe um único destaque, que a Feira é o que é pelo conjunto, pela sua vibração.

O escritor, como bom anfitrião, não arredou pé da praça. Há 14 anos, não ficava tanto tempo afastado de seu sítio, em Camaquã.




Autógrafos e bate-papo com o público têm marcado a rotina de Barbosa Lessa. Entre as homenagens recebidas, estão as feitas pelo serrotista Antônio Frizon (abaixo à esquerda) e pelos atores de "Deus e o Diabo na Terra da Miséria" (abaixo, à direita).




A agenda foi tão apertada que o patrono conta que nem teve tempo de comprar livros na Feira. Tudo desculpa. Confessa, pouco depois, que nem estava disposto a acrescentar mais nenhum volume nas estandes de sua biblioteca de mais de 2 mil livros.

- Cada vez que dá vontade de comprar um livro penso que minha biblioteca está no limite, que se eu levar um livro novo vou ter que tirar outro.

Assim como não existe o melhor lugar da Feira, não há ponto negativo em ser o principal homenageado A rotina não perturba o escritor. Nos últimos dias, ele perdeu a conta do número de autógrafos que deu, foi entrevistado por estudantes com deficiência auditiva e saudado pelo serrotista Antônio Frizon com Negrinho do Pastoreio.

- Pode parecer que estou sendo chato, mas não teve um único momento, um único lugar. A Feira é um conjunto. Aqui o livro que, normalmente, está na estante em um ambiente silencioso, convive em uma festa. O livro passa a ser alvo de uma batucada de emoções - escolhe as palavras para justificar.

Sua residência teve que ser transferida de Camaquã, onde vive há 14 anos, para um hotel próximo da Praça da Alfândega. Desde o dia 27, Barbosa Lessa passa, no mínimo, 8 horas por dia envolvido com a Feira.

- Nós sempre estamos cedo por aqui. E ficamos até 21h 30 min, 22h - comenta Nilza, mulher do escritor, sempre por perto. - Não conseguimos ir até Camaquã desde o início da Feira. Nunca ficamos tanto tempo longe de casa em 14 anos.

Tirar Barbosa e Nilza do sítio é um milagre. Ele vem, no máximo, uma vez por mês à Capital. Os amigos que sempre foram recebidos por lá retribuiram as gentilezas convidando o casal para jantar nos últimos dias. Outros lhe entregaram placas ou, simplesmente, abraçaram pessoalmente.

- Recebi uma bela homenagem de três moças, hoje três senhoras, que trabalharam comigo na época da Secretaria da Cultura - festeja.

Barbosa Lessa nunca frequentou assiduamente a Feira. Primeiro, morou muito tempo fora do Estado, depois estava retirado em Camaquã. Das poucas lembranças que guarda de edições passadas está seu emocionante discurso pronunciado em 1978, quando o patrono era o folclorista Walter Spalding.

- Spalding dedicou-se ao estdo da história do Rio Grande. E foi mais marcante ainda porque Spalding tinha morrido menos de dois anos antes.