extraído do jornal
O Pioneiro
12/03/2002

A popular toada do Negrinho
LITERATURA

Rio Grande de luto
Escritor Barbosa Lessa morre ao 72 anos em Camaquã

        O escritor Barbosa Lessa, 72 anos, morreu à uma hora desta segunda-feira, no Hospital Nossa Senhora Aparecida, em Camaquã, de câncer no pulmão. O morador do sítio Água Grande, em Camaquã, famoso por sua hospitalidade, descansou de dedilhar sua inseparável Olivetti. Nascido em uma chácara pertencente à cidade histórica de Piratini, em 13 de dezembro de 1929, quando criança queria ser peão de estância, mas teve o sonho abortado pelo pai, que lhe exigiu um diploma. Cumpriu as exigências paternas, e foi além. Ao longo de 50 anos, produziu 61 livros, além de peças de teatro, ensaios, músicas e textos jornalísticos, foi patrono da 46ªFeira do Livro de Porto Alegre, em 2000, e recebeu prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo romance Os Guaxos.

        A saída da terra natal, Piratini, foi aos 12 anos, depois de aprender, com a mãe, teoria musical, piano, um pouco de matemática e uma novidade para a época: datilografia. A partir daí, viveu uma espécie de nomadismo, indo estudar em Pelotas para depois viajar para Porto Alegre e ingressar no clássico do Colégio Júlio de Castilhos. Foi no tradicional colégio que, em 1948, junto com Paixão Côrtes e Glaucus Saraiva, foi um dos mentores dos centros de tradição gaúcha, os CTGs. Ajudou a fundar o 35, primeiro CTG da história do Rio Grande. Lessa ainda participou da criação da Casa de Cultura Mario Quintana.

        Ainda na capital gaúcha, Lessa formou-se em Direito pela UFRGS, em 1954, e depois foi para o centro do país. Lá viveu 20 anos, trabalhando em produção de cinema e TV, até sua volta para o Estado. No retorno, com passagem pelo Diário de Notícias e pela Revista do Globo, foi também secretário estadual da Cultura, quando ajudou a idealizar a Casa de Cultura Mario Quintana. Atuou também como colunista do jornal Zero Hora, no Caderno Cultura, por muitos anos. Em Camaquã, em uma casa pré-fabricada no meio do mato, na Serra do Erval, o escritor viveu os últimos dias com a companheira de quase quatro décadas, Nilza Lessa. O sepultamento foi ontem à tarde, em Camaquã.

DEPOIMENTO
A museóloga caxiense Tânia Tonet foi a primeira mulher a assumir a vice-presidência do Movimento Tradicionalista Gaúcho. A seguir, seu depoimento: “O Rio Grande do Sul perde o maior pensador das causas tradicionalistas. Um dos grandes feitos do Lessa foi a tese O Sentido e o Valor do Tradicionalismo, que foi aprovada no 1º Congresso Tradicionalista, em 1954, dando embasamento teórico ao movimento tradicionalista. Lessa era um homem de múltiplos talentos, um intelectual de primeira grandeza, um idealista. Tive a honra de desfrutar da amizade dele e bater longos papos, discutindo sobre os caminhos desse movimento. É uma perda insubstituível”.



Rio Grande de luto
A popular toada do Negrinho

        Ao mesmo tempo em que se dedicava à implantação do tradicionalismo, Barbosa Lessa pesquisou a música regional. Ao deparar, também, com a escassez do repertório gauchesco, criou novos títulos. Foi assim que, em 1957, surgiu a popular toada Negrinho do Pastoreio. A canção é baseada na lenda do jovem escravo que, ao perder a tropilha de cavalos do patrão, é agrilhoado a um formigueiro para ser devorado pelos insetos. Ao acender uma vela para a madrinha, Nossa Senhora, ela encontra os animais perdidos. Mas é tarde, o Negrinho está morto, e acaba virando mito. Diz a lenda que, quando se perde alguma coisa, basta acender uma vela e pedir ao Negrinho para que o objeto reapareça.

        A narrativa, uma das mais populares do Estado, foi contada por Simões Lopes Neto, Glaucus Saraiva e Jayme Caetano Braun. Teve versões no cinema, e nas artes plásticas, Vasco Prado esculpiu negrinhos. Na visão Lessa, a lenda é contada do ponto de vista de um exilado do campo, situação quase autobiográfica. A música já foi cantada por dezenas de intérpretes. Inezita Barroso, Leopoldo Rassier e Kleiton & Kledir entre eles.

OBRAS
1951 – As Mais Belas Poesias Gauchescas (seleção e notas)
1953 – História do ChimarrÃo 1954 – O Sentido e o Valor do Tradicionalismo, tese aprovada pelo 1º Congresso Tradicionalista do RS
1956 – Manual de Danças Gaúchas, co-autoria com Paixao Côrtes
1957 – Primeiras Noções de Teatro (didático)
1958 – O Boi das Aspas de Ouro (contos)
1959 – Os Guaxos (romance) 1959 – Arquivo de Danças Brasileiras (plaquete)
1962 – Cancioneiro do Rio Grande (letra e música)
1967 – Nova História do Brasil
1975 – Crime é um Caso de Marketing (policial)
1975 – Danças e Andanças da Tradição Gaúcha
1978 – Mão Gaúcha – Introdução ao Artesanato Sul-Rio-grandense
1978 – Rodeio dos Ventos (contos)
1978 – Rio Grande do Sul Através de Debret (relatório ilustrado)
1978 – Pequena Antologia do Bolicho
1980 – Problemas Brasileiros – Uma Perspectiva Histórica (2 volumes)
1984 – Rio Grande do Sul, Prazer em Conhecê-lo (história)
1985 – Nativismo, um Fenômeno Social Gaúcho
1987 – República das Carretas (romance histórico)
1987 – Continente do Rio Grande (quadrinhos de Flávio Colin)
1997/1998 – Almanaque dos Gaúchos 1, 2 e 3
1999 – Histórias para Sorrir (contos, crônicas e poesias)
1999 – Nheçu
2000 – Rio Grande do sul, Prazer em Conhecê-lo (2ªedição) Mais informaçoes podem ser encontradas no site http://www.paginadogaucho.com.br/barbosalessa/liv.htm